Não há Feira, mas há escritores

26.6.13


"Não há Feira, mas há escritores" é uma iniciativa espontânea de um numeroso grupo de escritores portugueses, em resposta ao cancelamento da tradicional Feira do Livro do Porto. Pela primeira vez em 82 anos a cidade não teve a realização da feira do livro, por causa da falta de entedimento entre a Câmara do Porto e a Associação Portuguesa de Editores e Livreiros. Os escritores reuniram forças para não deixar a data passar em branco, e decidiram realizar por conta própria um evento para confraternizar com os leitores, como uma alternativa e também como um protesto. Os escritores participantes tiveram alguns minutos pra falar de seus livros e depois ficavam disponíveis para os autógrafos e conversas.

Pelo que acompanhamos através da página do grupo no Facebook, e também nos comentários gerais de abundantes blogs, o encontro organizado pelos escritores que ocorreu no dia 22 de junho, foi um evento que agradou muito não só os escritores, mas também os leitores visitantes e à todas as pessoas que se solidarizaram com a iniciativa através da internet. A feira ocorreu de maneira harmoniosa e cordial, onde leitores e escritores puderam conversa e trocar ideias de forma criativa. O próximo encontro vai ser no dia 29 de Junho (sábado) às 17h. Manuel Jorge Marmelo, um dos administradores do evento nos disse através do Facebook:

  "A festa foi, de facto, muito bonita, se calhar por ter sido espontânea e organizada informalmente. A solidariedade dos leitores sentiu-se muito profundamente, quer no modo como aderiram à iniciativa, quer na forma como contactaram os autores, como amigos que, de algum modo, acabam por ser aqueles que partilham a aventura da literatura.A festa, aliás, continuará no próximo sábado. Esperamos que seja ainda mais participada, agora que conseguimos demonstrar que somos mesmo capazes de levar isto por diante, sem orçamento e apenas com a dedicação de três pessoas e a cumplicidade de todos os autores e leitores presentes."


Manifesto pela Feira do Livro do Porto


Os textos de protesto permanecem nas Árvores da Lamentação dispersas pela praça da Liberdade.

A relação entre os escritores e os leitores não se move ao gosto dos interesses de grupos, sejam económicos ou políticos. Move-nos o apreço, a cordialidade, a cumplicidade e o profundo respeito, valores que não podem ficar reféns de manobras palacianas, conveniências políticas ou intrigas mesquinhas. O encontro entre aqueles que escrevem e aqueles que lêem não pode, por isso, estar dependente de decisões administrativas arbitrárias. Ninguém tem o direito, por ação ou omissão, de impedir ou impossibilitar a realização daquele que é um dos mais importantes eventos culturais da cidade do Porto e do Norte de Portugal.

A Feira do Livro do Porto não se realiza este ano e não importa já discutir se a responsabilidade maior cabe à Câmara Municipal do Porto ou à Associação Portuguesa de Editores e Livreiros, ou qual das instituições teve mais, menos ou nenhuma vontade de organizar o certame. Os leitores e os escritores foram privados da sua grande festa anual ao fim de 82 anos de história, facto que apenas pode ser entendido como um gesto de total desrespeito por aqueles que lhe deram corpo.


Os signatários querem, assim, manifestar o seu repúdio pela não realização da 83ª edição da Feira do Livro do Porto. Para além de um ataque à vida cultural portuense, a decisão constitui uma afronta à cidadania e aos milhares de visitantes que todos os anos encontravam na Feira do Livro um espaço de convívio, lazer, partilha e cultura. Os signatários exigem ainda dos responsáveis políticos e corporativos a devolução da Feira do Livro à cidade do Porto, apelando à população e a todos os que, pelo silêncio, não querem ser cúmplices deste esbulho e confisco cultural a juntarem vozes e vontades para que a literatura regresse às ruas e praças do Porto. Queremos que os livros, os leitores e os escritores voltem a ser celebrados na Feira do Livro — como até aqui.

Ainda assim, e porque aquilo que nos move é apenas o irrepetível momento de comunhão que a literatura proporciona, estamos outra vez na Avenida dos Aliados. De várias formas e, sobretudo, com aquela que é a nossa única arma: a palavra.


Os signatários:
Abraão Vicente, Adélia Carvalho,  Adoa Coelho, Afonso Cruz, Aida Gomes, Alexandre Honrado, Alice Vieira, Álvaro Holstein, Ana Bárbara Santo António, Ana Luísa Amaral, Ana Oliveira, Anabela Mota Ribeiro, André Letria , Andrea Del Fuego,  Ângelo de Carvalho, António Mota, Carina Rosa, Carla M. Soares, Carla Maia Almeida, Carla Sofia Luz, Carlos Nuno Granja, Casimiro Teixeira, Clara Correia, Clara Pinto Correia , Conceição Oliveira, Cristina Carvalho, Daniel Leitão , Diogo Beja , Domingos Amaral, Elisabete Gonçalves, Eugénia Soares Lopes, Fátima Menéres, Fernando Alvim, Filomena Batista, Filipa Leal, Francisco Duarte Mangas, Francisco Guita Jr., Germano Silva, Helder Magalhães, Helena Vasconcelos, Hélia Correia, Henrique Soares, Inês Botelho, Isabel Zambujal, Ivo Machado, Inês Pedrosa, Jaime Rocha, João Batista, João Carlos Brito, João Luís Barreto Guimarães, João Paulo Cotrim, João Tordo, Joana Marques, Joaquim do Carmo, Joel Cleto, Joel Neto, Jorge Botas , Jorge Paulo Serra, Jorge Magalhães, Jorge Sousa Braga, José Eduardo Agualusa, José Luís Peixoto, José Manuel Diogo, J. Rentes de Carvalho, José Vaz, Julieta Monginho, Júlio Magalhães, Luciana Espinha, Luís Francisco, Luís Miguel Rocha, Luísa Alonso, Luísa Fortes da Cunha, Lourdes Queirós, Manuel Jorge Marmelo, Marco Martins, Margarida Fonseca Santos, Maria David, Maria Gorjão, Maria Mamede, Maria Manuel Viana, Miguel Carvalho, Miguel Esteves Cardoso, Miguel Miranda, Miguel Viegas Leal, Nelson Ferraz, Nuno Camarneiro, Odete Ferreira, Ondjaki, Onésimo Teotónio de Almeida, Palmira Martins, Patrícia Reis, Paulo Ferreira, Paulo José Miranda, Paulo M. Morais, Paulo Moreiras, Pedro Almeida Vieira, Pedro Bessa, Pedro Eiras, Pedro Guilherme-Moreira, Pedro Pinto, Pedro Sande, Pilar Del Rio, Porfírio Dias Santos, Raquel Freire, Renato Córdoba, Richard Zimler, Rúben de Brito, Rui Lage, Rui Manuel Amaral, Rui Vieira, Rui Zink, Rute Magalhães, Rute Marinho, Samuel Pimenta, Sandro William Junqueira, Sílvia Alves, Teolinda Gersão, Teresa Almeida, Tiago Moita, Tito Couto, Valdemar Cruz, Valter Hugo Mãe, Vasco Ricardo, Vítor Hugo Melroeiro.

Foram distribuídas quadras alusivas à suspensão da Feira do Livro para colocar “nos manjericos”, vasinhos de plantas semelhantes ao manjericão espalhados pela festa.

Texto de Carlos Nuno Granja

Sou leitor desde pequeno, aliás, desde que me lembro. E desde que me lembro, esperava todos os anos pela vinda de um escritor à minha escola. Naqueles tempos, não tão remotos, as feiras do livro ainda não estavam na moda e as carrinhas da Gulbenkian faziam muito o seu papel, ou seja, levavam os livros por caminhos de pedra, aos altos e baixos. Na verdade, não havia obstáculo que impedisse a viagem de um livro até às mãos de um leitor ávido de palavras escritas, ansioso por ler histórias e poemas. E é olhando para estes obstáculos, que eram ultrapassados pela resistência de quem escrevia e de quem lia, impedindo-os de alinharem numa corrente que prejudicasse a literatura, que assistimos a esta nobre união entre escritores. Eles sabem que a resistência depende muito do convívio entre quem escreve e quem lê. A troca de palavras, de ideias, de sorrisos e de olhares, é a vitamina para os pensamentos futuros. É necessário enquadrar os pensamentos, afugentar os fantasmas e criar uma corrente que nos una e prepare o futuro das novas gerações. Precisamos de cidadãos livres, com pensamento livre e de gestos firmes. Qualquer feira do livro pertence ao povo. O livro pertence ao povo. A literatura define um país! É possível ignorar a literatura? Para nós, não! É possível dizer não a quem nos quer amordaçar, amarrar e prender ao silêncio? Sim, é! Por isso, venham os escritores, desçam a avenida, aliados a uma causa, a uma cidade que tanto deu ao país e que continuará a dar. Aqui cresceu Portugal!Viva o Porto!



Pedro Almeida Sande: Odeio que me tenhas excluído do sonho e do teu abraço de polis

Odeio dizer-te isto mas não tinhas o direito de me apagares do calendário como se faz às coisas inúteis que nos poluem os dias, odeio dizer-te isto mas a sombra que lançaste sobre os meus dias, os dias que me debruço sobre as palavras juntas a que chamam de letras não merecia esta escuridão que lhe deste nem o desprezo a que a votaste, odeio dizer-te isto mas não são apenas as notas e os dígitos os inimigos do povo mas a ambição e a ganância que te tomaram e a depressão que causaste a cada um de nós habitantes dos livros, habitantes do norte.

E que esta tristeza que nos causas a nós, leitores, e a nós autores, publicados ou não publicados, aos molhos ou às resmas, em coletâneas ou isolados, mas autores, escritores de sonhos, ou até aos passarinhos que nos vinham chilrear aos ouvidos, e às crianças, meu deus, às crianças, esses pequenos leitores, que esta tristeza «te caia», a ti que não te conheço a face, a ti esse colectivo de falta de vontades, a ti esse negador de «estórias», contos, romances, poemas e de tudo o mais que as palavras juntas encerram, que te caia que nem uma doença, um remorso infindável, um anátema, um ocluso para sempre cravado no teu maxilar. E que a vida que queríamos viver e não a deixaste, que a retomes num próximo ano, envergonhado, humilde, com o dobro da vontade e com o dobro do desprendimento que te perdoe para sempre a usura de um ano em que mataste o sonho.

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