Abrimos espaço no blog Bibliotecas do Brasil para autores independentes mostrarem seu trabalho, o primeiro foi o Luis Costa e agora publicamos um texto inédito do Wesley Barbosa (uma pequena biografia dele está após o conto), esse conto faz parte do seu primeiro livro, O Diabo na Mesa dos Fundos, que será lançado pela editora Selo Povo do escritor Ferréz. E o Ferréz contou como é trabalhar no livro:
O Quinto livro da editora Selo Povo está em fase de diagramação e criação da capa.
é o primeiro da editora que eu editei completamente, e pra mim um orgulho em trabalhar nesse primeiro livro de Wesley Barbosa, um jovem que conheci na loja da 1dasul do Capão e que sempre discutia literatura comigo, até que comecei a ler seus textos. Dai pra cá se passaram mais de dois anos e agora um novo livro em breve ganha as ruas.
Confira o conto abaixo:

 A rainha da Zona


Não venha me dizer que a sua vida é pior do que a minha. Se for por causa dos pratos, da pose forçada e dos olhares... Eu também sou preta, melhor dizendo, sou nega, a Nega Fulô. E também já trabalhei em restaurante. Já lavei roupa no tanque, roupa velha e usada. Não tive máquina de lavar. Ainda hoje, meus braços doem, e as costas nem se fala. Não, não venha me dizer que a sua vida é pior. Nem pensão dos meus dois pequenos eu recebi. Sim, tenho dois filhinhos, dois homenzinhos. Já moramos os três, de favor, em uma casa que tomei conta. A dona, quer dizer, a senhora Maria da Conceição, conhecia minha mãe, na época em que eu era moça. Quando me viu com as crianças - uma no colo, a outra arrastada pela mão - sentiu pena de mim. -Vamos conversar, menina - disse ela. Entrei em sua casa com a cara do abandono. Ela me ofereceu um copo de café. Gostou dos meninos. Prometeu que eu podia ficar na casa dos fundos, que estava desocupada, mas eu teria que me virar para me sustentar, e foi isso que fiz; depois de ter sido abandonada pelo pai dos meus filhos. Trabalhei para sustentá-los. Fiz de tudo: catei frutas e verduras no Ceasa, não tenho vergonha de dizer não. Não tenho! Sim. Fiz de tudo: lavei chão, cuidei de criança alheia, arrumei cama de quarto de motel, arregacei as mangas.

Uma noite, olhando para os meninos, que choravam de fome, me arrumei toda: passei batom, um batom vermelho, reforcei três vezes, meus lábios ficaram da cor do sangue, enchi o cabelo de creme (não, não são lisos, não, mas tenho orgulho de quem sou), na época, não existia chapinha - já vi mulheres passarem ferro de passar roupa no cabelo. Hoje posso me dar ao luxo de comprar um creme de pele mais caro, um tratamento capilar no melhor salão de beleza da cidade. Hoje posso.

Enfim calcei um tamanco de salto alto, disse para as crianças irem dormir, que eu já voltava. Saí, saí! Meu Deus, depois que abri aquela porta eu soube que não seria a mesma quando voltasse.

Passei por uma rua cheia de bares. Em um deles, um homem, que estava encostado num carro branco, mexeu comigo (ah, eu estava com uma bolsinha em volta do braço). Olhei para trás e dei risada. Não fiquei esperando. Continuei a caminhar. O homem entrou no carro, deu marcha-à-ré, e veio em minha direção. Perguntou se eu queria carona. Eu não disse nada, apenas sorri para ele. Dei de difícil. Então ele olhou bem nos meus olhos e entendeu tudo: perguntou quanto eu cobrava, mas por amor de Deus eu não sabia o que dizer, não sabia. - Cinquenta - eu disse, fingindo naturalidade - cinquenta reais, meia hora.

Ele não quis ir para o motel, disse que havia esquecido a carteira em casa, que só estava com os cinquenta. Fomos para um lugar pouco movimentado. Fizemos no carro mesmo. Não vou dizer que não gostei. Eu já havia feito antes, muitas vezes, e não me pagaram nada, não me disseram palavras bonitas, não me compraram roupa cara, não me deram o que comer, nem me aqueceram do frio, ou enxugaram minhas lágrimas. Nada! Nada! Ouviu? Nada!

Então... No dia seguinte, acordei com o menorzinho chorando. Fui à padaria, comprei pão, leite, café, manteiga e cereal para eles. Aquele foi o melhor café da manhã que tivemos, depois de dias comendo sobras.

Uma vez me enxotaram, como se eu fosse cachorro, de dentro de um restaurante. De dentro de um restaurante. Ouviu? Eu nunca farei isso com ninguém. Nunca. Ouviu? Eu sei o que é pedir. Sei bem como é sentir o peso da humilhação, os filhos pedirem comida e você não ter nada para alimentá-los.

Naquele mesmo dia fui à banca e comprei o jornal amarelinho. Olhei, olhei e olhei. Eu sabia que aquele emprego, que prometia mundos e fundos era o que eu precisava. Os meninos brincavam no quarto que também servia de sala. Eu precisava de uma casa maior. Precisava dar conforto para eles. Não hesitei. Com os trocadinhos que haviam sobrado, comprei um cartão telefônico e liguei. Marquei com a mulher no dia seguinte. Era para estar na "agência" às cinco horas. "Às cinco horas..." Onde já se viu entrevista de emprego essa hora da tarde? A mulher que me atendeu se chamava Rosa, na verdade todas nós tínhamos um apelido, um nome de guerra - engraçado, sempre imaginei essas mulheres assim: mascando chiclete, com os olhos com rímel, bastante rímel e uma voz de mãe. Não precisei de apelido. O meu era esse: Nega Fulô. Não escondo de ninguém.

- Já trabalhou na noite antes, querida? - disse Rosa.

- Sim - menti com a maior cara de pau.

-Escuta aqui, menina: se você for trabalhar na minha casa, não quero saber de trapaça, nem de mentira pra mim. Você acha que me engana? Quantos anos você tem?

- Vinte e três - disse eu. Essas mulheres conhecem bem a gente. São mais espertas do que qualquer psicólogo estudado.

- Vem. Vamos.

Ela me apresentou às outras meninas, e me deu uma roupa bastante sensual.

Com essa saia e essa blusinha aqui, tive a minha primeira noite na boate Sonho Azul. Ah, e você ainda acha que a sua vida é uma merda? Você não sabe o que é sofrer escoriações na alma, menina. Não. Ainda não sabe. Eles te fazem de capacho. Batem na sua cara. Querem tudo, tudo. Ouviu? Ah, você não sabe o que é voltar de madrugada, o vizinho indo trabalhar, olhando para você com nojo. No começo eu ligava.

Só depois de um tempo já não me importava mais.

 Então aluguei uma casa, uma casa maior, de quatro cômodos. Meus filhos podiam correr pelos cômodos. Eu até havia comprado um vídeo-game para eles. Éramos felizes.  Fui me arrumando. Ajeitando a vida. Investi em meu corpo. Esses peitos aqui custaram caro. E as roupas - para agradar os clientes - nem se fala.

Sim. Investi em mim e em meus filhos.

Guardei dinheiro no banco. Comecei a comprar somente o necessário. Anos e anos trabalhando para comprar uma casa. Foi com meu suor. Hoje meus filhos são estudados. Conhecem bem meu passado. Eu passei a vida toda explicando isso para eles. Um deles é advogado, o outro está estudando para ser veterinário. Tudo com meu suor. Tenho orgulho deles. Sim, menina, sim, agora sou dona da boate Sonho Azul. Não ligo para os comentários alheios.  Vai, menina, volta para o seu emprego, volta para o restaurante, isso aqui não é vida para você, não. Escuta o que eu te digo. Sim, sim, eu sei que você já tem vinte e três, mas o negócio aqui é mais embaixo: tem que ter jogo de cintura, garra, coragem, necessidade, peito, axé.


Wesley Barbosa

Foto: Wesley Barbosa

Wesley Barbosa, nascido em Itapecerica da Serra, divisa com São Paulo, tem 25 anos e começou a escrever aos 9.
Divulga e publica seu trabalho em seu blog, wesleyliteraura.blogspot.com.br, que vem alimentando desde 2009 com textos, poemas e contos.
Faz parte do encontro de Literatura Marginal desde maio de 2014, onde começou a divulgar no microfone seus primeiros trabalhos.

Concluiu o ensino médio, trabalhou em biblioteca de escola e como repositor de supermercado, além de desenvolver diversas outras atividades. O Diabo na Mesa dos Fundos pelo Selo Povo é seu livro de estreia. Para Wesley 'a literatura das periferias tem que ganhar as ruas e veículos, fazemos parte dessa história, nós jovens é que podemos mudar as regras ditadas e contar nossa própria história'.

*Saiba mais informações e acompanhe as novidades pelo Facebook oficial do Wesley.

Wesley e Ferréz trabalhando em seu novo livro | Foto: Wesley Barbosa

Arte: Juliano Rocha

O texto dessa semana é sobre como a leitura pode destruir preconceitos e criar uma conscientização histórica que demonstra como alguns hábitos e atitudes podem ser considerados excludentes. Ter uma sociedade com mais leitura é uma das ações possíveis para diminuir o número de crimes de ódio. Além de uma conversa sobre a decisão da Suprema Corte dos EUA a favor do casamento gay.

Além dos textos inéditos e exclusivos temos também os posts mais procurados esta semana no blog, a agenda cultural e as novidades que aconteceram conosco, não perca tempo e assine agora para receber semanalmente informações, análises e textos inéditos em seu e-mail. É gratuito e rápido, apenas complete o formulário abaixo e você já receberá todas as edições que enviamos até hoje.

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Texto e arte: Juliano Rocha
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Criamos um novo blog que será a nossa estante de livros na Internet, com todos os títulos que já indicamos no blog Bibliotecas do Brasil e em nossas redes sociais, para ficar mais fácil de encontrar quando quiser uma dica do que ler. Acesse LIVROS.BIBLIOTECASDOBRASIL.COM e procure as nossas indicações. Por ser grande o número de livros ainda estamos alimentando o blog com mais de 3 anos de indicações, portanto sempre volte nele para conferir novidades.
Semanalmente enviamos textos inéditos para 500 assinantes através das newsletters Bibliotecas do Brasil Inbox e Bibliotecas do Brasil Expresso. Eles não são publicados no blog, para recebê-los é preciso assinar gratuitamente a newsletter, onde estabelecemos um contato mais próximo com nossos leitores e com as pessoas que mais se identificam com o nosso conteúdo. 
Nós percebemos que existem alguns preconceitos contra a leitura de e-books em e-readers, tablets e até contra a utilização de ferramentas eletrônicas que podem nos auxiliar em nosso dia a dia, por isso decidimos publicar esses textos no blog Bibliotecas do Brasil. Eles foram enviados na Inbox #42 de fevereiro e na Inbox #45 de março de 2015. Nesses dois relatos contamos como utilizamos os tablets em nosso favor. É preciso conhecer para poder julgar e essa sempre foi a nossa abordagem com relação a novidades tecnológicas, nós vamos atrás, mexemos bastante e decidimos se aquilo é algo que irá ser útil. O medo do novo não deve impedir que possamos utilizar a tecnologia para produzir e adquirir maior conhecimento em mais lugares. Como sempre é necessária a moderação e saber equilibrar o tempo que se utiliza equipamentos eletrônicos e o tempo de viver a vida palpável. Mas essa regra de parcimônia, ou o caminho do meio como diria Siddhartha Gautama, é algo que deve ser aplicado a tudo que fazemos.

Porque os e-books me fazem um leitor melhor 


Se não fosse pelos e-books eu seria um leitor privado da leitura hoje em dia. Quando leio ou vejo pessoas falando que e-books são prejudiciais ou até que a tecnologia tornaria crianças em autistas, me sinto triste por criarem esta divisão inexistente entre as tecnologias do passado e recentes. Não se pode generalizar, utilizar o exemplo de pais que preferem que seus filhos não incomodem do que realmente atuar em sua educação para mediar esse contato com a tecnologia não é um argumento que deva ser levado a sério.
Esse medo do novo, e por consequência da tecnologia é natural, seres humanos sempre assustaram-se com aquilo que a tecnologia trouxe em um primeiro momento, para logo após abraçar seu uso de maneira massiva, como na velha história dos espectadores que saíram correndo da tenda onde era projetado o curta dos irmãos Lumière A Chegada do Trem na Estação por achar que o trem projetado os atropelaria.

Meu problema com esse alarde todo é o de julgar e-books prejudiciais ou como um inimigo dos livros em papel, única e exclusivamente por não compreenderem como os e-books são muito mais que aliados e facilitadores da leitura e da difusão de cultura para pessoas que não possuem acesso aos livros em papel em várias situações cotidianas. E este preconceito com o novo pode sim privar as pessoas de continuarem a leitura que começaram em um livro de papel em qualquer lugar, ou de entrarem no mundo da leitura através de um livro digital.

Eu e a Dani, como já contamos algumas vezes em edições anteriores da newsletter, temos que nos locomover muito pela cidade por causa do excesso de barulho na rua onde moramos. Nós moramos em um bairro que tem tráfego pesado de caminhões, carros, motos e ainda para piorar o infame culto aos carros tunados, ou seja, um ambiente hostil para que a leitura aconteça. E em muitos momentos não podemos levar o livro que estamos lendo, seja pela falta de espaço na bolsa, esquecimento ou pelo livro ser muito pesado mesmo – eu estou lendo a biografia do Einstein que tem 696 páginas e a Dani está lendo Crime e Castigo que tem 568  páginas e somados tem mais de 1 quilo e meio. Os nossos locais de refúgio na maioria das vezes são bibliotecas e livrarias, e nesses locais nós não podemos entrar com os nossos exemplares de livros.

Nesses momentos o que nos salva são nossos dois tablets, comprados com a ideia de ler e-books e ter acesso à internet quando não estamos próximos ao computador. A portabilidade - eles são bem leves - e a possibilidade de levarmos uma pequena biblioteca conosco nos atraiu desde o começo e eu sempre gostei de tecnologia, abracei a ideia de e-books há um bom tempo, ainda lembro de ler meu primeiro livro digital – A Metamorfose do Kafka - na tela do computador em uma posição meio desconfortável lá no começo dos anos 2000. Eles também são grandes aliados para lermos os conteúdos das nossas graduações em Artes e História. Como estudamos na modalidade EAD (educação à distância), baixamos os arquivos em PDF das disciplinas que estamos estudando, e podemos levar conosco para qualquer lugar para ler e estudar, além de reportagens e artigos longos de revistas e sites que costumo ler também podem ser arquivados para leitura no tablet.

Nós podemos continuar a leitura daquele livro que deixamos em casa em um café, no canto mais silencioso da praça de alimentação de um mercado enquanto esperamos a chuva ou o trânsito acalmar, no banco de uma praça, eu uma livraria ou até dentro de uma biblioteca que não possui o livro que estamos lendo naquele momento. Essa continuidade da leitura é benéfica e permitiu que voltássemos a ler ou até lêssemos mais do que antes de possuir esses tablets. Não existe a Escolha de Sofia nesse cenário como temos visto em algumas publicações erroneamente colocando dessa forma – ou você lê o papel ou lê o digital. Para nós existe um casamento da tecnologia moderna (digital) com a tecnologia do Renascimento (impresso) para um maior acesso à leitura.
Imagine as pessoas que moram em cidades menores que não possuem livrarias – existem 5570 municípios no Brasil e somente 3481 livrarias, grande parte delas estão somente nas capitais – ou aquelas cidades onde não existe uma biblioteca atuante com um acervo que atenda a curiosidade de seu público. Nesses locais os livros digitais representam uma alternativa e em muitos casos a única forma de acesso mais barato, ou até gratuito, aquele livro que um adolescente ouviu falar e que poderia ser sua porta de entrada nesse mundo da leitura.

Crianças e adolescente já nasceram no mundo digital e para eles a internet é uma realidade incontestável e um mundo natural, eles lidam com tablets, celulares e computadores como uma extensão de seus corpos e pular da leitura de um blog para a leitura de um e-book é algo natural e não requer grandes esforços. A partir daí, a curiosidade e a atuação de pessoas que apresentem livros de papel e outros títulos para eles os levará para uma vida mais plena onde eles possuem acesso ao livro independente da mídia na qual eles estão.
Como tudo na vida é necessário existir alguém que mostre o caminho, como utilizar, os benefícios e os perigos de qualquer nova tecnologia. Existem livros impressos que não devem cair em mãos inexperientes e existem sites na internet que não devem ser acessados por quem não possui a maturidade para medir as consequências futuras de seus atos. Nesse momento o papel de uma bibliotecária ou bibliotecário, professores, pais e responsáveis pela criação é o de estar junto com essas crianças e adolescentes e mostrar o caminho para uma utilização saudável da tecnologia.

Em momentos como esse, do início da disseminação dos livros digitais no Brasil cabe a todos nós experimentar, testar um livro digital, ver qual formato de leitura é mais produtivo – pode ser em celular, tablet, computador ou em aparelhos que foram feitos somente para a leitura, como os e-readers. Não há a necessidade de se eliminar aquela sensação deliciosa de pegar um livro de papel e sentir suas folhas rasparem contra os dedos, ou de abrir um livro e cheirar a mistura do cheiro da tinta com a polpa do papel. Esses pequenos prazeres podem se unir ao prazer de ler em uma fila chata, continuar a leitura mesmo quando o livro foi esquecido ou a possibilidade de se jogar na leitura em momentos que o mundo não permite que você fique em casa porque seus vizinhos estão fazendo uma festa com carros tunados no meio da rua.
Esse casamento perfeito dessas duas tecnologias me permite continuar sendo um leitor mesmo morando em um local que não respeita o silêncio. E por tudo isso eu sou sim um defensor dos e-books. E dos livros em papel. Juliano Rocha


Como os tablets se tornaram meus grandes aliados na leitura


Uma das melhores compras que fizemos nesses últimos anos foi a aquisição de dois tablets para ler e-books. Eu tenho feito uso do tablet para ler desde 2010, quando compramos um dispositivo eletrônico para baixar os arquivos em PDF da faculdade, e levá-los conosco para qualquer lugar e oportunidade de leitura que surgisse. Como estávamos na modalidade EAD – educação à distância - o tablet foi comprado para ampliar essas oportunidades.
Moramos em uma região industrial e de serviços pesados em um bairro da periferia de Curitiba, e enfrentamos muitas horas ao longo do dia de tráfego intenso e barulhento de caminhões e ônibus e maciça circulação dos infames carros tunados passando em frente de casa, que infelizmente não são coibidos pela prefeitura. A possibilidade de baixar livros que não temos e poder carregá-los conosco para qualquer lugar mais tranquilo foi o maior motivo que nos fez comprá-los, e claro, o nosso entusiasmo pela possibilidade de ter uma biblioteca além da que temos em casa, e além daquelas que já frequentamos, dentro da bolsa ou da mochila ao alcance das mãos. Com a oferta de inúmeros aplicativos – que podem ser gratuitos ou pagos – qualquer lugar longe de casa agora torna-se o nosso mini escritório e biblioteca.

Quando compramos o primeiro tablet, o Juliano já se engajou na leitura de vários e-books, atividade que ele já fazia tranquilamente no notebook. Eu tive certa dificuldade no começo para ler na tela do tablet, mas hoje coloco tudo na conta da rude tendência que temos de rejeitar algumas tecnologias simplesmente por não conhecê-las, por nunca ter chegado perto delas, por nunca ter pegado o aparelho na mão para mexer e entender suas funções. É uma resistência e hostilidade que fazemos muitas vezes baseados em experiências ruins de terceiros que não tem uma consciência ou orientação de como fazer uma boa utilização dos eletrônicos. A tecnologia ofertada pelos tablets e pelos smartphones só têm nos ajudado e facilitado as nossas vidas. Todas as ideias embrionárias das edições das newsletters Bibliotecas do Brasil Inbox e Expresso são registradas em nossos tablets.

Usamos os tablets para ter acesso a livros e autores que são mais difíceis de encontrar nas livrarias, ou são mais acessíveis em e-books. O Juliano tem o hábito de ouvir podcasts de aulas de História no tablet, enquanto se dedica a alguma outra atividade em casa. Eu procuro identificar essa tendência de resistir às novas tecnologias, para primeiro entender como elas podem me beneficiar, antes de rejeitar qualquer equipamento eletrônico sem antes compreender as suas funcionalidades. Infelizmente aqui em Curitiba há inúmeras lojas de eletrônicos que repelem as pessoas que querem conhecer os aparelhos e entender como eles funcionam – nós passamos há pouco tempo por um incidente desagradável com um vendedor valentão numa frustrada tentativa de comprarmos um teclado silencioso (leia na Inbox #41). Mas para comprar o tablet certo, que case bem com suas expectativas e necessidades é preciso pesquisar muito, tanto na internet quanto pessoalmente nas lojas, para encontrar aquele que seja o ideal.

Depois de muito uso do primeiro tablet, eu consegui entender porque eu não me adaptava à ele nas leituras de livros com mais de 300 páginas. Com tela de 5 polegadas, as letras do aplicativo Aldiko só aumentavam até certo ponto, que pra mim não era confortável para a leitura, já que eu gosto de ler com letras em um tamanho e espaçamento bem razoáveis. Era apenas uma questão de adaptação de aparelho, por isso é importante pesquisar bastante antes de comprá-lo, ignorar vendedores que queiram forçar a barra na compra sem deixar com que você conheça as funções do tablet direito. Quando entrar na loja, sinta previamente as energias negativas emanadas de prováveis vendedores valentões, e mexa bastante nos aparelhinhos antes de decidir comprar um modelo. No ano passado compramos um outro tablet, com tela de 8 polegadas, que foi uma excelente compra, já que de imediato me adaptei ao tamanho da tela, e pude aumentar as fontes para um tamanho confortável para a minha leitura.

Com ele eu consegui reorganizar meu tempo de leitura – de manhã bem cedo leio o tradicional livro de papel, e à noite ou de madrugada, leio e-books, ou em qualquer oportunidade em que a leitura possa acontecer. Quando viajo escolho três livros em papel, mas levo no tablet atualmente cerca de 150 livros. Com a possibilidade de ler em qualquer lugar além da minha cama, estou conseguindo me dedicar mais à leitura de artigos de sites que gosto muito no aplicativo Instapaper, que torna a formatação do texto de internet mais confortável e sem distrações visuais, além de disponibilizar os artigos para leitura off-line.
Com o tablet eu posso ouvir música enquanto leio. As bibliotecas de faculdades podem ser bem barulhentas conforme os grupos de alunos vão se reunindo para fazer trabalhos, então a música para encobrir o bate papo é fundamental. Enquanto leio algum e-book ou artigo no tablet posso consultar o dicionário, e há a possibilidade de instalar vários dicionários. Nós instalamos dicionários de inglês/português, espanhol/português e o tradicional dicionário da língua portuguesa, bem fáceis de acessar durante a leitura, já que a troca de janelas é dinâmica. Quando há wi-fi disponível posso fazer pesquisas na internet sobre a leitura que estou fazendo. Não há nenhuma biblioteca pública em Curitiba que fique aberta no período noturno, então acabamos dependendo das bibliotecas de instituições privadas que oferecem alguns serviços à comunidade leitora externa. E infelizmente, nem todas as bibliotecas que frequentamos têm uma iluminação adequada para a leitura. Os dois livros que escolhi um dia desses para ler eram de páginas brancas e letrinhas miúdas – Cidadãos de Simon Schama e A Longa Viagem da Biblioteca dos Reis de Lilia Moritz Schwarcz.

Com a iluminação branca, ao entardecer quando ainda há a luminosidade do dia, mas dentro da biblioteca começa a ficar meio escuro, tem um período de pelo menos uma hora de desconforto para a leitura, já que a luz branca só ilumina completamente quando ao redor do prédio já está escuro. Nesse período a página branca do livro fica chapada, e as linhas facilmente se embaralham. Quando começa a escurecer - observamos essa condição em 3 das bibliotecas que frequentamos - a luz branca não vence a escuridão dentro da biblioteca. Daí a nossa preferência por livros de papel com páginas creme, elas são mais fáceis de ler, mas bem mais difíceis de encontrar nos livros de História que tanto gostamos.
Nesses momentos eu posso utilizar o tablet onde o tamanho da fonte pode ser ajustado para aquele que for mais confortável para a leitura. O brilho e a luminosidade podem ser ajustados para que a leitura seja feita de uma maneira agradável. Com o tablet eu posso entrar e sair de qualquer biblioteca ou livraria sem precisar dar satisfações, o que não dá para fazer com o livro impresso. Em uma das bibliotecas de faculdade privada que frequentamos é proibida a entrada de capas e cases, tanto de notebooks quanto de tablets, então é preciso verificar essas normas antes de fazer uso de eletrônicos em bibliotecas.

Durante a leitura eu posso fazer anotações no bloco de notas ou no aplicativo Evernote quando não levo comigo o caderninho e uma caneta para dentro da biblioteca, livraria ou qualquer lugar onde eu esteja. Costumo copiar muitos trechos de livros, mas quando a passagem é extensa, posso fotografar as páginas com a câmera. Eu faço um uso constante da câmera para fotografar as capas dos livros que estou lendo, ou da página em que parei a leitura. Nós também fazemos muito o uso de mapas, de um aplicativo de GPS, e um aplicativo para medir a distância e o tempo de nossas caminhadas pela praia. Há uma variedade de aplicativos que servem às suas necessidades e passatempos favoritos que podem ser instalados no tablet, além de jogos, o aplicativo do YouTube e do Netflix para filmes e séries. Eu me dei de presente essa experiência de assistir ao filme Na Natureza Selvagem na telinha de 8 polegadas embaixo da coberta, só para testar a capacidade de reprodução do tablet, e foi ótimo. Costumo ver muitos vídeos desse jeito.

Esses são alguns dos usos que eu faço no dia a dia dos tablets, mas existem muitos recursos que utilizo através de vários aplicativos úteis que facilitam minhas atividades. Do ponto de vista de leitora, observadora de bibliotecas, livrarias e grande escritora de anotações em caderninhos, esses são os maiores e mais constantes usos que eu faço deles. E o mais bacana é que a relevância desses dispositivos eletrônicos é você quem dá ao expandir sua funcionalidade para as suas necessidades e desejos, seja para leitura, trabalho, lazer ou outros hobbies. Dani Carneiro




Nessa semana temos todos esses temas na Bibliotecas do Brasil Expresso:

Livros sobre o sul dos EUA • Lauryn Hill e um cover espetacular da Nina Simone • Geladeiras velhas viram bibliotecas • Financiamento coletivo do livro Pixação • Um poderoso discurso do Emicida • Dia Internacional Nelson Mandela • Tempo de biblioteca quentinha • Foto inédita de Vincent van Gogh • Uma homenagem à bibliotecária Cynthia Hurd, morta por um atirador em Charleston • Novo blog com todas nossas indicações de livros

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Texto e arte: Juliano Rocha
Fotos: Small concerns - Catarse - Hyperallergic - BrooklynVeganRock 'n' Beats
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