Uma conversa sobre acessibilidade em espaços culturais: teatros, museus e auditórios

6.4.15


A acessibilidade é um assunto de extremo valor e interesse humano e é fundamental tornarmos esse tema cada vez mais presente em conversas e debates, para refletirmos a importância de diminuir o sofrimento que a falta dela gera na vida das pessoas. No artigo Acessibilidade em Bibliotecas – uma visão pessoal, abordei especificamente as bibliotecas, baseada em situações reais vividas por mim. Eu narrei situações que acontecem no dia a dia de uma pessoa com dificuldades de locomoção, seja cadeirante ou usuário de muletas, órteses ou próteses e também andadores ortopédicos.

Coloco em discussão a acessibilidade para aqueles que trabalham em espaços públicos destinados à cultura, e muitas vezes se sentem constrangidos por não saber agir, ou não ter o que fazer para acolher uma pessoa com dificuldades de locomoção. Essa discussão é voltada também para aqueles que tentam ir a um espaço cultural e não conseguem usufruí-lo plenamente ou passam por dificuldades e constrangimentos. E para aqueles que já desistiram de frequentar espaços públicos destinados à cultura, que preferem os shoppings pela facilidade, mas principalmente para aqueles que ainda vão precisar da acessibilidade no futuro, que possam ter melhores condições de acesso.

Relato algumas situações que ocorreram comigo, e também podem ter ocorrido com você, com algum conhecido ou pessoa próxima, e que pela falta de acessibilidade, agora pensa duas vezes antes de sair de casa ou retornar àquele local justamente pela falta de um sistema de apoio ao cadeirante e à pessoa com dificuldades de locomoção em espaços culturais ou centros de cultura (teatros, museus e auditórios).


Como você se sentiria entrando pelos "bastidores" de um local público porque o acesso pela frente, pela entrada principal onde todos os demais frequentadores passam, é totalmente inacessível à sua dificuldade?

A cadeira de rodas não sobe degraus, nem mesmo um degrauzinho sem a ajuda de alguma "alma generosa" disposta a fazer força. Ao visitar uma biblioteca, depois de muita conversa e negociação com o responsável pela segurança do local, que não aparentava estar acostumado a receber pessoas cadeirantes por ali, mas que foi muito prestativo, pois esse é um sentimento comum que despertamos quando somos "diferentes", o único jeito foi entrar pelos fundos, pelo local destinado à carga e descarga de materiais e equipamentos, com corredores apertados, empoeirados, passando por um depósito de móveis e caixas. Aí, é só mais um pouquinho de esforço entre corredores escuros e apertados, um elevador antigo e pronto! Chegamos!

Uma das coisas que às vezes não são observadas no trajeto de um cadeirante por exemplo, é como ele faz para chegar ao local. Essas são algumas perguntas que os espaços culturais interessados com a frequência de pessoas com dificuldade de locomoção deveriam estar preocupados em atender:

  • Tem uma vaga especial para estacionar perto da porta de entrada? 
  • Se não houver a vaga próxima da entrada, será que tem lugar para estacionar um carro em frente ao espaço cultural para que o cadeirante desça em segurança, bem como os seus acompanhantes, sem precisar parar/atrapalhar todo o trânsito? 
  • O espaço cultural preocupa-se que as vagas especiais sejam respeitadas pela demais pessoas que ilegalmente se utilizam delas - mesmo sabendo que ela é de uso exclusivo - garantindo a fiscalização constante, ou prevenindo junto aos órgãos fiscalizadores que elas estejam disponíveis para quem realmente precisa?
  • O acesso das rampas permite a autonomia de um cadeirante sem acompanhante? 
  • O local pode ser amplo, com banheiro acessível e todo o mobiliário adequado, mas as entradas estão adaptadas para a passagem de uma cadeira de rodas, ou para uma pessoa que utilize muletas ou andadores ortopédicos? 
  • As escadas ou rampas tem corrimão? 
  • Esses corrimãos estão firmes e seguros? 
  • Um deficiente visual por exemplo, consegue subir com segurança? 
Você pode começar a observar esses detalhes que não percebemos na correria dos nossos dias, quando gozamos de perfeita saúde física e conseguimos subir as escadas pulando degraus de dois em dois. Eu mesma nunca tinha percebido, até precisar da acessibilidade em minha vida para continuar a ter acesso aos espaços que mais amo frequentar, como exposições em museus, bibliotecas, teatros e auditórios para shows.


Se uma pessoa com mobilidade reduzida, ou algum outro tipo de deficiência motora gosta de ouvir música, assistir shows e espetáculos teatrais, os auditórios estão aptos a recebê-las? Todos os auditórios de acordo com a Lei da Acessibilidade - Lei Federal  nº 10.098, devem destinar lugares para cadeirantes.
Artigo 12 do Capítulo IV: “Os locais de espetáculos, conferências, aulas e outros de natureza similar deverão dispor de espaços reservados para pessoas que utilizam cadeira de rodas, e de lugares específicos para pessoas com deficiência auditiva e visual, inclusive acompanhante, de acordo com a ABNT, de modo a facilitar-lhes as condições de acesso, circulação e comunicação”.
Alguns desses locais de cultura como teatros, reservam esses espaços logo na fileira da frente, junto ao palco, mas já fui em teatro em que o local destinado aos cadeirantes era na última fileira. Esse posicionamento dos espaços destinados aos cadeirantes pelo que observei, é conforme a facilidade de entrada no auditório. Mas e os banheiros, são acessíveis? Nem sempre a acessibilidade garantida para assistir o show em um teatro está de acordo com a acessibilidade dos banheiros do local. Pois é, já aconteceu comigo.

Fui a um show num auditório ótimo, dentro de um espaço cultural super renomado, onde fui gentilmente conduzida ao meu local, nos fundos do auditório. Até aí, tudo bem. A entrada era próxima e o caminho era todo plano. Show maravilhoso, ótima acústica, público educadíssimo e funcionários treinados. Mas e o banheiro, onde fica mesmo? Ah, lá embaixo, perto do palco e para chegar até lá precisa-se vencer grandes lances de escada. Muitos degraus, sem nenhuma acessibilidade à uma cadeira de rodas. Bom, tudo bem, sem banheiro, o jeito é esperar chegar em casa. Como nunca sei o que vou encontrar é preciso um preparo psicológico e físico para voltar até minha casa sem poder ir ao banheiro.


Quando frequentamos espaços públicos estamos fadados a encontrar dificuldades. É claro que não se espera que tudo seja perfeito, mas se espera um mínimo de igualdade. Algumas pessoas que trabalham nesses espaços, quando se deparam com uma situação que depende de determinada adaptação para acontecer, têm a maior boa vontade na hora de ajudar, querem solucionar o problema, deixar-nos à vontade, mas na maioria das vezes não estão treinadas para agir adequadamente com pessoas com deficiência ou com necessidades especiais. E por quê? Porque pouco é falado sobre a acessibilidade nesses locais.

Por causa da minha profissão, eu fiz muitos cursos, oficinas e aperfeiçoamento para trabalhar em bibliotecas e com projetos literários, mas pouquíssimas vezes o espaço físico foi questionado em relação à acessibilidade ou o tema sequer chegou a ser abordado. Por que não conversamos mais sobre acessibilidade em espaços culturais? A boa vontade, a compaixão e o desejo de colaborar é visível, mas nem sempre o ato ajuda.

Não tenho o hábito de reclamar de tudo, mas vivendo essa situação há pouco tempo e tendo aproveitado intensamente dos espaços culturais sem nunca me dar conta das dificuldades que sofrem muitas pessoas, eu me pergunto por que tem tão poucas pessoas com deficiência nesses lugares? Com certeza não é porque as pessoas com necessidades especiais não apreciam exposições, espetáculos, shows e bibliotecas. As pessoas se cansam de não encontrar a acessibilidade necessária para frequentar espaços de cultura. E muitas vezes não estão mais tão dispostas a enfrentar dificuldades desse tipo. A Declaração Universal dos Direitos Humanos deixa claro que:
Artigo 22º - Toda pessoa, como membro da sociedade, tem direito à segurança social e à realização, pelo esforço nacional, pela cooperação internacional de acordo com a organização e recursos de cada Estado, dos direitos econômicos, sociais e culturais indispensáveis à sua dignidade e ao livre desenvolvimento da sua personalidade.

Artigo 27º - §1. Toda pessoa tem o direito de participar livremente da vida cultural da comunidade, de fruir as artes e de participar do processo científico e de seus benefícios. 
Ambos envolvem a questão da dignidade do ser humano e o desenvolvimento de sua personalidade, são baseados e pautados na liberdade, na igualdade e na justiça.

Eu tenho que admitir que às vezes prefiro trocar uma bela exposição de arte por um fast-food num shopping qualquer, não por preferência é claro, mas por acomodação. Não se espantem, mas dos locais que frequento, os shoppings são os espaços que estão melhor adaptados. Parece que eles já perceberam que pessoas com necessidades especiais consomem, comem e gostam de ver gente. Ah, e fazem xixi!

Estou consciente de que mudanças exigem planejamento, estudos de caso, possibilidades e verbas. Mas eu quero com esses artigos no blog Bibliotecas do Brasil dar voz a um grupo de pessoas que tem a mesma necessidade de ir e vir, de participar, de interagir, de se divertir, de aprender, de conhecer e atuar na sociedade, mas que precisa de mais atenção. Espero que o meu próximo artigo sobre acessibilidade seja para contar o quão maravilhoso está um espaço depois que passou por adaptações e reformas, ou que espaço maravilhoso foi construído com a intenção de dar acesso a todos que querem apreciar cultura.

Jacqueline Machado Carteri é pedagoga e trabalha com projetos de incentivo à leitura há 15 anos. Além de já ter coordenado espaços de leitura, é frequentadora assídua de bibliotecas públicas e espaços culturais. Aficionada por leitura, Jacqueline criou a página Capitu Lê que hoje é seu maior meio de comunicação com o mundo da leitura. Por estar em tratamento ortopédico encontra-se temporariamente afastada do trabalho e com dificuldades de locomoção, e está utilizando uma cadeira de rodas há quase dois anos. Conheça a Capitu Lê no Facebook.

* As imagens do post são meramente ilustrativas
Edição do texto: Daniele Carneiro
Arte: Juliano Rocha
Fotos: Daniele Carneiro, Juliano Rocha, Google MapsCarterhawk

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