Conto inédito do escritor Wesley Barbosa

1.7.15

Abrimos espaço no blog Bibliotecas do Brasil para autores independentes mostrarem seu trabalho, o primeiro foi o Luis Costa e agora publicamos um texto inédito do Wesley Barbosa (uma pequena biografia dele está após o conto), esse conto faz parte do seu primeiro livro, O Diabo na Mesa dos Fundos, que será lançado pela editora Selo Povo do escritor Ferréz. E o Ferréz contou como é trabalhar no livro:

O Quinto livro da editora Selo Povo está em fase de diagramação e criação da capa.
é o primeiro da editora que eu editei completamente, e pra mim um orgulho em trabalhar nesse primeiro livro de Wesley Barbosa, um jovem que conheci na loja da 1dasul do Capão e que sempre discutia literatura comigo, até que comecei a ler seus textos. Dai pra cá se passaram mais de dois anos e agora um novo livro em breve ganha as ruas.
Confira o conto abaixo:

 A rainha da Zona


Não venha me dizer que a sua vida é pior do que a minha. Se for por causa dos pratos, da pose forçada e dos olhares... Eu também sou preta, melhor dizendo, sou nega, a Nega Fulô. E também já trabalhei em restaurante. Já lavei roupa no tanque, roupa velha e usada. Não tive máquina de lavar. Ainda hoje, meus braços doem, e as costas nem se fala. Não, não venha me dizer que a sua vida é pior. Nem pensão dos meus dois pequenos eu recebi. Sim, tenho dois filhinhos, dois homenzinhos. Já moramos os três, de favor, em uma casa que tomei conta. A dona, quer dizer, a senhora Maria da Conceição, conhecia minha mãe, na época em que eu era moça. Quando me viu com as crianças - uma no colo, a outra arrastada pela mão - sentiu pena de mim. -Vamos conversar, menina - disse ela. Entrei em sua casa com a cara do abandono. Ela me ofereceu um copo de café. Gostou dos meninos. Prometeu que eu podia ficar na casa dos fundos, que estava desocupada, mas eu teria que me virar para me sustentar, e foi isso que fiz; depois de ter sido abandonada pelo pai dos meus filhos. Trabalhei para sustentá-los. Fiz de tudo: catei frutas e verduras no Ceasa, não tenho vergonha de dizer não. Não tenho! Sim. Fiz de tudo: lavei chão, cuidei de criança alheia, arrumei cama de quarto de motel, arregacei as mangas.

Uma noite, olhando para os meninos, que choravam de fome, me arrumei toda: passei batom, um batom vermelho, reforcei três vezes, meus lábios ficaram da cor do sangue, enchi o cabelo de creme (não, não são lisos, não, mas tenho orgulho de quem sou), na época, não existia chapinha - já vi mulheres passarem ferro de passar roupa no cabelo. Hoje posso me dar ao luxo de comprar um creme de pele mais caro, um tratamento capilar no melhor salão de beleza da cidade. Hoje posso.

Enfim calcei um tamanco de salto alto, disse para as crianças irem dormir, que eu já voltava. Saí, saí! Meu Deus, depois que abri aquela porta eu soube que não seria a mesma quando voltasse.

Passei por uma rua cheia de bares. Em um deles, um homem, que estava encostado num carro branco, mexeu comigo (ah, eu estava com uma bolsinha em volta do braço). Olhei para trás e dei risada. Não fiquei esperando. Continuei a caminhar. O homem entrou no carro, deu marcha-à-ré, e veio em minha direção. Perguntou se eu queria carona. Eu não disse nada, apenas sorri para ele. Dei de difícil. Então ele olhou bem nos meus olhos e entendeu tudo: perguntou quanto eu cobrava, mas por amor de Deus eu não sabia o que dizer, não sabia. - Cinquenta - eu disse, fingindo naturalidade - cinquenta reais, meia hora.

Ele não quis ir para o motel, disse que havia esquecido a carteira em casa, que só estava com os cinquenta. Fomos para um lugar pouco movimentado. Fizemos no carro mesmo. Não vou dizer que não gostei. Eu já havia feito antes, muitas vezes, e não me pagaram nada, não me disseram palavras bonitas, não me compraram roupa cara, não me deram o que comer, nem me aqueceram do frio, ou enxugaram minhas lágrimas. Nada! Nada! Ouviu? Nada!

Então... No dia seguinte, acordei com o menorzinho chorando. Fui à padaria, comprei pão, leite, café, manteiga e cereal para eles. Aquele foi o melhor café da manhã que tivemos, depois de dias comendo sobras.

Uma vez me enxotaram, como se eu fosse cachorro, de dentro de um restaurante. De dentro de um restaurante. Ouviu? Eu nunca farei isso com ninguém. Nunca. Ouviu? Eu sei o que é pedir. Sei bem como é sentir o peso da humilhação, os filhos pedirem comida e você não ter nada para alimentá-los.

Naquele mesmo dia fui à banca e comprei o jornal amarelinho. Olhei, olhei e olhei. Eu sabia que aquele emprego, que prometia mundos e fundos era o que eu precisava. Os meninos brincavam no quarto que também servia de sala. Eu precisava de uma casa maior. Precisava dar conforto para eles. Não hesitei. Com os trocadinhos que haviam sobrado, comprei um cartão telefônico e liguei. Marquei com a mulher no dia seguinte. Era para estar na "agência" às cinco horas. "Às cinco horas..." Onde já se viu entrevista de emprego essa hora da tarde? A mulher que me atendeu se chamava Rosa, na verdade todas nós tínhamos um apelido, um nome de guerra - engraçado, sempre imaginei essas mulheres assim: mascando chiclete, com os olhos com rímel, bastante rímel e uma voz de mãe. Não precisei de apelido. O meu era esse: Nega Fulô. Não escondo de ninguém.

- Já trabalhou na noite antes, querida? - disse Rosa.

- Sim - menti com a maior cara de pau.

-Escuta aqui, menina: se você for trabalhar na minha casa, não quero saber de trapaça, nem de mentira pra mim. Você acha que me engana? Quantos anos você tem?

- Vinte e três - disse eu. Essas mulheres conhecem bem a gente. São mais espertas do que qualquer psicólogo estudado.

- Vem. Vamos.

Ela me apresentou às outras meninas, e me deu uma roupa bastante sensual.

Com essa saia e essa blusinha aqui, tive a minha primeira noite na boate Sonho Azul. Ah, e você ainda acha que a sua vida é uma merda? Você não sabe o que é sofrer escoriações na alma, menina. Não. Ainda não sabe. Eles te fazem de capacho. Batem na sua cara. Querem tudo, tudo. Ouviu? Ah, você não sabe o que é voltar de madrugada, o vizinho indo trabalhar, olhando para você com nojo. No começo eu ligava.

Só depois de um tempo já não me importava mais.

 Então aluguei uma casa, uma casa maior, de quatro cômodos. Meus filhos podiam correr pelos cômodos. Eu até havia comprado um vídeo-game para eles. Éramos felizes.  Fui me arrumando. Ajeitando a vida. Investi em meu corpo. Esses peitos aqui custaram caro. E as roupas - para agradar os clientes - nem se fala.

Sim. Investi em mim e em meus filhos.

Guardei dinheiro no banco. Comecei a comprar somente o necessário. Anos e anos trabalhando para comprar uma casa. Foi com meu suor. Hoje meus filhos são estudados. Conhecem bem meu passado. Eu passei a vida toda explicando isso para eles. Um deles é advogado, o outro está estudando para ser veterinário. Tudo com meu suor. Tenho orgulho deles. Sim, menina, sim, agora sou dona da boate Sonho Azul. Não ligo para os comentários alheios.  Vai, menina, volta para o seu emprego, volta para o restaurante, isso aqui não é vida para você, não. Escuta o que eu te digo. Sim, sim, eu sei que você já tem vinte e três, mas o negócio aqui é mais embaixo: tem que ter jogo de cintura, garra, coragem, necessidade, peito, axé.


Wesley Barbosa

Foto: Wesley Barbosa

Wesley Barbosa, nascido em Itapecerica da Serra, divisa com São Paulo, tem 25 anos e começou a escrever aos 9.
Divulga e publica seu trabalho em seu blog, wesleyliteraura.blogspot.com.br, que vem alimentando desde 2009 com textos, poemas e contos.
Faz parte do encontro de Literatura Marginal desde maio de 2014, onde começou a divulgar no microfone seus primeiros trabalhos.

Concluiu o ensino médio, trabalhou em biblioteca de escola e como repositor de supermercado, além de desenvolver diversas outras atividades. O Diabo na Mesa dos Fundos pelo Selo Povo é seu livro de estreia. Para Wesley 'a literatura das periferias tem que ganhar as ruas e veículos, fazemos parte dessa história, nós jovens é que podemos mudar as regras ditadas e contar nossa própria história'.

*Saiba mais informações e acompanhe as novidades pelo Facebook oficial do Wesley.

Wesley e Ferréz trabalhando em seu novo livro | Foto: Wesley Barbosa

Arte: Juliano Rocha

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3 comentários

  1. Um grande autor acontecendo. que mundo bom de viver....literatura pra quem precisa.

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  2. Parabéns pelo Conto Wesley, força na luta! Aguardarei o livro.

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  3. Eis o Advogado e o futuro Veterinário.." FILHOS DA PUTA" literalmente
    ótimo conto..Parabéns

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