Páginas que estimulam a leitura: Biblioteca da Vovó

7.6.15


Preocupada com o incentivo à leitura em Pratinha, município no interior de Minas Gerais, e consciente da importância dos livros na vida das pessoas, Sandra Alvarenga resolveu montar o Projeto Mãos Amigas em 2012, que tinha como objetivo arrecadar livros para as crianças e adolescentes das escolas da cidade e incentivá-las a ler. Os livros que não se encaixavam no perfil dos leitores dessas instituições ela levava para o seu local de trabalho onde montou uma estante e passou a fazer empréstimo para a população local. Movida pela vontade de ver os adolescentes e crianças da cidade destinadas a um futuro melhor, ela manteve as atividades do Projeto Mãos Amigas até o final de 2014.

Com o Mãos Amigas Sandra organizou três viagens a eventos em Belo Horizonte que incluíram passeios pela cidade,‘muitos adolescentes pela primeira vez viram prédios e andaram de elevador. Eles foram ao cinema, comeram sanduíche e ficaram alucinados com o shopping, onde precisamos ir novamente, mas as estradas a cada dia que passa ficam mais violentas e fico com muito medo. O autor Darlan Soares veio nos conhecer, na época eu consegui dinheiro com moradores e comprei 83 livros e ele doou mais 30 para distribuir entre os meninos, eram três turmas que fizeram trabalhos escolares sobre o livro de Darlan. Eles também participaram de um concurso de frases literárias em que a Editora Leya fez a doação dos livros aos ganhadores e um concurso de redação em que várias autoras do grupo Entre Linhas e Letras presentearam os melhores textos com livros'.



Mas a Sandra encontrou algumas resistências e dificuldades pelo caminho que acabaram por desgastar o Projeto Mãos Amigas. Ela passou então a se concentrar em um projeto mais pessoal, onde pode ter um maior controle dos empréstimos, e ao mesmo tempo fazer a mediação da leitura e despertar a compreensão dos leitores para os cuidados básicos que eles devem ter ao manusear os livros. Agora Sandra dá continuidade ao seu sonho de ver mais pessoas lendo através da Biblioteca da Vovó. Para isso ela mantém um blog e uma página no Facebook, além de disponibilizar a estante repleta de livros em seu local de trabalho como uma biblioteca comunitária. As pessoas que querem ler, podem visitar a Tornearia do Bira para emprestar livros, pegar dicas de títulos e conversar com a Sandra: ‘Aqui no meu trabalho, no escritório tenho uma estante que funciona há muito tempo como uma biblioteca comunitária. Os meninos vem buscar e eu também levo nas casas dos leitores e nos comércios pois uma grande maioria não tem tempo e às vezes até vergonha de vir buscar os livros. Como é tudo muito pertinho e eu faço serviço de banco, não me custa nada levar e também faço um trabalho de ‘psicóloga’, escuto as mágoas e tristezas das amigas e muitas só têm os livros como fuga e diversão, amo o que faço’.

A Biblioteca da Vovó nasceu antes de o Projeto Mãos Amigas tomar forma, mas nos últimos dois anos Sandra deu prioridade ao segundo: ‘Com o Projeto Mãos Amigas eu estava me desgastando demais, ficava muito infeliz com o sumiço e a falta de conservação dos livros na escola para onde os livros eram doados. Então, resolvi continuar no meu serviço, fazendo um trabalho de formiguinha. Eu vou continuar emprestando livros para as amigas até um dia, se Deus quiser, ter meu próprio espaço. Eu tenho a promessa antiga do meu marido de construir um cômodo na casa que estamos fazendo na cidade para a biblioteca. Como tudo é muito caro tenho que ter paciência, mas um dia sai’.


Uma estante que é uma biblioteca comunitária em Pratinha, interior de Minas Gerais

Na Biblioteca da Vovó, Sandra está fazendo um trabalho de organização e limpeza dos livros além de montar fichas para manter a ordem de empréstimos. Ela mantém um controle simples dos livros com fichas de empréstimo para saber quem são os leitores que estão com determinado livro, e mantê-los circulando de leitor em leitor. 


Várias das dificuldades que a Sandra encontrou durante os dois anos de atividades com o Projeto Mãos Amigas são comuns de serem encontradas pelas escolas do Brasil: a falta de cooperação de algumas instituições em abrir suas portas e a mentalidade para receber trabalhos e iniciativas voluntárias voltadas para o incentivo à leitura. A ausência de bibliotecária na biblioteca escolar ou a presença de profissionais sem qualificação no espaço, desmotivados ou que estão focados na aposentadoria é fator determinante para como se dará o relacionamento entre crianças, adolescentes e os livros. Infelizmente a falta de conscientização de alguns professores e diretores de escolas para a importância da leitura é uma realidade que impõe resistências aos projetos parecidos com o da Sandra. Outra triste realidade percebida pela Sandra: ‘a biblioteca escolar é lugar de castigo, para os alunos fazerem provas substitutivas, depósito de entulhos e coisas inúteis e por aí vai’. 

A presença de funcionários em bibliotecas escolares que brigam e ofendem alunos é um fator que desmotivam crianças e adolescentes a frequentá-las. Em alguns casos esse rompimento é para a vida toda. Com o Projeto Mãos Amigas Sandra estabeleceu uma parceria com vários autores nacionais que enviavam exemplares de suas publicações para o projeto. Ela doava os livros para algumas escolas da cidade, mas a falta de cuidado e preservação dos livros acabou desgastando suas energias dedicadas ao projeto: ‘Com o tempo, os livros começaram a aparecer sem capas, sujos, faltando páginas. Muitos alunos não cuidavam dos livros e às vezes nem devolviam e ninguém reclamava. Os alunos são colocados de castigo na biblioteca por ter feito bagunça em sala, tem aluno fazendo prova por ter faltado no dia certo, o espaço não tem dia nem hora para abrir as portas, resumindo, é o local menos aconselhado para leitura’.

Sandra conta com o apoio e a solidariedade de autores nacionais, amigas e pessoas que doam livros voluntariamente para montar aos poucos o espaço próprio de sua tão sonhada biblioteca comunitária.

Um excelente artigo sobre a situação das bibliotecas escolares é Biblioteca Escolar: Ranços e Avanços de Cintia Barreto, que reflete sobre problemas enfrentados por alunos nas bibliotecas de suas escolas, desde espaços físicos precários, acervos desatualizados, catalogação desorganizada, funcionários despreparados, horários de funcionamento em desacordo com o horário disponível dos alunos, que só permitem a consulta ao livro dentro de seu recinto sem a possibilidade de empréstimos, e inúmeras situações que se encontram em desacordo com o bom funcionamento de uma biblioteca.

Dentro do escritório da Tornearia do Bira, espaço de trabalho da Sandra Alvareng surge uma biblioteca comunitária disponível para qualquer pessoa que queira ler. Amara Fernanda é uma das leitoras assíduas que frequentam a Biblioteca da Vovó.

Sandra dá continuidade ao seu grande desejo de ver cada vez mais pessoas com vontade de ler, a partir desse mês quero fazer umas coisas coloridas e bonitas para atrair mais a molecada. A Biblioteca da Vovó cada dia fica mais bonita! Eu já tenho meu trabalho mas luto para termos um pouquinho mais de cultura. Não vou desanimar nunca, tenho muita gente que gosta das minhas visitas levando um livro para alegrar a vida. Vou continuar levando livros para as escolas e creches, e minha biblioteca comunitária ainda vai crescer muito, terei lindos livros para quem quiser. Eu fico muito orgulhosa e motivada pois o Max, meu neto que está no 2º ano lê melhor que muito adulto, ama os livros e vai continuar meu trabalho quando eu me for’.



Um novo projeto de incentivo à leitura: a Gibiteca da Professora Claudia

Professora Claudia e sua turma: 'vamos montar uma gibiteca para incentivar a leitura'

Sandra nos contou que ela e sua amiga a professora Claudia Aparecida de Paula estão empenhadas agora na montagem de uma gibiteca: ‘Claudia é uma professora muito esforçada e criativa, ela sonha em montar uma gibiteca na escola e até hoje não conseguiu. Quando fui à Bienal Internacional do Livro de São Paulo comprei 20 gibis e depois ganhei mais 15, e esses exemplares são o que ela tem até hoje. Ela tem três filhas adolescentes e ganha pouco pois é professora pela prefeitura, este ano ela dá aulas para o 3º ano e em todas as datas comemorativas ela arruma um tempinho para fazer teatro, cartazes, passeatas, ela não tem vergonha de se fantasiar, é muito alegre, ama o que faz’.

E a professora Claudia contou ao blog Bibliotecas do Brasil sobre a sua ideia de montar um gibiteca na escola: ‘Eu trabalho na Escola Municipal Coronel Neca de Paula há 23 anos, as crianças têm de 6 a 12 anos. A ideia da gibiteca surgiu durante a realização do PACTO de 2013, um curso de capacitação oferecido pelo governo para os professores do 1° ao 3° ano fundamental com duração de três anos, e em 2015 finalizaremos. Quando percebi o interesse dos alunos por gibis muitos deles nem conheciam. Montei a mala viajante e eles levaram para casa os gibis que eu tenho, e que são apenas 18 exemplares da Turma da Mônica, do Recruta Zero e outros. Trabalhei com livros que vieram para o PACTO também, agora não estou tendo mais fontes de doação ou recursos, por isso pedi ajuda a Sandra, ela até me doou alguns gibis. Estamos aceitando doações de gibis e de livros infantis para montar a tão sonhada gibiteca das crianças’.

Como colaborar

Biblioteca da Vovó
Doações de livros de literatura, gibis, HQ's para a Biblioteca da Vovó devem ser enviados para a Sandra Alvarenga no endereço: Praça da Matriz, nº 323, Centro. Pratinha/MG - CEP: 38960-000

Gibiteca da Professora Claudia
Doações de gibis e livros infantis para a Gibiteca da Professora Claudia Aparecida de Paula devem ser enviadas para o endereço: Rua Rua Pedro Paulo dos Santos, nº192. Centro, Pratinha/MG - CEP: 38960-000

*Os livros precisam estar em boas condições para serem doados. Leia o nosso artigo 6 passos para uma doação consciente antes de doar qualquer material.

Matéria produzida por Daniele Carneiro - Bibliotecas do Brasil - Creative Commons
contato@bibliotecasdobrasil.com
Fotos: Sandra Alvarenga e Claudia Aparecida de Paula

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4 comentários

  1. Gente... ficou lindo!
    Obrigada sempre por esse espaço importantíssimo reservado a Pratinha, fiquei muito feliz.

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  2. Esse é um trabalho muito bonito e sinto muita alegria em ter contribuido com os meus livros.Parabéns Sandra.

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  3. ADOREI. LIVRO É SEMPRE BOM. PENA QUE É LONGE DA MINHA CASA; SE NÃO SERIA DOADORA.

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    1. Olá Avessa, se você quiser pode fazer doações de livros pelos Correios, o endereço da Sandra consta no final do texto ou procurar projetos de incentivo à leitura no Rio de Janeiro. Nós mesmos já falamos de vários por aqui no blog, confira: http://www.bibliotecasdobrasil.com/search?q=rio+de+janeiro

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