ZineZona — Exposição de Zines Fotográficos da Biblioteca de Fotografia do IMS Paulista

15.8.26

 

No dia 15 de agosto de 2026, o IMS Paulista anunciou em seu perfil no Instagram a exposição "ZineZona", dedicada à produção contemporânea de zines fotográficos no Brasil. A mostra apresenta um recorte dessa cena das publicações independentes, a partir do acervo da Biblioteca de Fotografia do Instituto Moreira Salles e tem trabalhos de diferentes regiões do país. A exposição reflete uma prática recorrente da Biblioteca de Fotografia do IMS Paulista, que abre espaço para fotolivros e zines fotográficos produzidos de forma independente e adquiridos por meio de convocatórias abertas ao longo dos anos. 
 
A Biblioteca de Fotografia do IMS, em parceria com a Revista ZUM, mantém desde 2018 a Convocatória de Fotolivros ZUM/IMS, iniciativa ligada ao Festival ZUM que recebe fotolivros, zines, catálogos e livros de fotografia de várias partes do Brasil e de outros países. As publicações selecionadas recebem uma ajuda de custo, e três delas são premiadas em cada edição, um incentivo direto à produção independente de fotolivros e zines no Brasil.
 

EXPOSIÇÃO: 'ZineZona' é um recorte da abundante produção de zines fotográficos contemporâneos no Brasil, a partir do acervo da Biblioteca de Fotografia do IMS.

Historicamente ligados à cultura punk e aos movimentos negro e queer, os zines se consolidaram como forma independente de criação e comunidade, e em tempos hiperdigitais servem de contraponto material à onipresença dos feeds.

Organizada como percurso de livre exploração, a mostra reúne obras de várias regiões do país, abordando arquivos familiares, gênero, raça, território, experimentação gráfica e diários visuais, entre outros temas.

Zines, bibliotecas e preservação

A relação entre zines e bibliotecas aparece no texto da curadoria da ZineZona, que aborda questões de identificação, catalogação, acondicionamento e preservação dessas publicações nos acervos.

Para quem se interessa pela catalogação de zines em bibliotecas, esse trecho do texto da curadoria da exposição ZineZona é especialmente pertinente:

"Para uma biblioteca, os zines colocam desafios. Muitas vezes, o nome do autor não aparece; o selo editorial deixou de existir; os únicos vestígios de sua circulação levam a uma antiga página do Fotolog ou a um e-mail desativado. Também a materialidade dos zines resiste às convenções: são publicações sem lombada, difíceis de acondicionar, feitas às vezes de papéis que rapidamente amarelam, empenam ou desbotam. Incorporá-los ao acervo implica repensar as formas de catalogar e de dar acesso a objetos que nasceram para circular livremente. E fazer isso é reconhecer que preservar significa conservar não apenas esses objetos, mas também suas histórias".

Leia o texto completo da curadoria da exposição ZineZona, assinado pelos curadores Ângelo Manjabosco, Miguel Del Castillo e Rony Maltz e publicado no site do IMS:

A zona é o lugar do indefinido, do encontro e da possibilidade. O zine é uma zona.

Esta exposição representa uma tentativa de compreender a diversidade e a capilaridade da produção de zines fotográficos no Brasil após 2010. O percurso proposto é o da errância, o da livre exploração pelas pilhas e prateleiras.

Em um zine, cabe de tudo: ele é maleável e inclusivo. Se, na publicação convencional, pelo alto investimento, não há espaço para erro, no zine, sobra. Ousado demais? Não para o zine. Estranho, esquisito? Não o bastante. Provocador, exagerado? Sim, por favor. O zine não se conforma. Distribuídas em redes informais e circulando contra a corrente, essas publicações costumam resistir à inserção no mercado tradicional de livrarias e passar abaixo do radar da crítica e das principais instituições de arte, o que as torna particularmente difíceis de mapear. Esta mostra nasce também desse descompasso.

O nome “zine” é uma redução de “magazine” (revista, em inglês), palavra cuja origem remonta ao árabe “makhzan”: “armazém, depósito de mercadorias”, ou seja, um “lugar de variedade”. A prática ganhou força graças ao punk e aos movimentos negro e queer dos anos 1960 e 1970. Dentro de comunidades marginalizadas, a produção de panfletos e zines fotocopiados era uma forma de se expressar sem mediação, reforçando laços e ecoando vozes que não encontravam lugar nos meios de comunicação hegemônicos.

Por esse DNA antiformalista e de independência editorial, o formato também foi explorado por artistas visuais, desenhistas, quadrinistas e poetas. A partir do desenvolvimento de novas tecnologias de reprodução, como a fotocopiadora, nos anos 1970, e a impressão digital, nos anos 1990, a fotografia passou a ocupar um lugar central na cultura dos zines, reencontrando nela sua vocação para a cópia e a distribuição em maior escala.

Em um presente cada vez mais mediado pelas telas, a arte impressa independente representa um modo anacrônico de produzir e circular imagens. Além de poder ser um meio ágil e de baixo custo de articular uma ideia, os zines se tornam também uma forma de resistência estética e cognitiva: contra o deslizamento ininterrupto dos feeds e streams, o atrito das páginas e o cheiro de tinta que gruda no dedo.

Para uma biblioteca, os zines colocam desafios. Muitas vezes, o nome do autor não aparece; o selo editorial deixou de existir; os únicos vestígios de sua circulação levam a uma antiga página do Fotolog ou a um e-mail desativado. Também a materialidade dos zines resiste às convenções: são publicações sem lombada, difíceis de acondicionar, feitas às vezes de papéis que rapidamente amarelam, empenam ou desbotam. Incorporá-los ao acervo implica repensar as formas de catalogar e de dar acesso a objetos que nasceram para circular livremente. E fazer isso é reconhecer que preservar significa conservar não apenas esses objetos, mas também suas histórias.

A cena brasileira de zines fotográficos se expandiu significativamente nas últimas décadas, com o fortalecimento de feiras de impressos, pequenas editoras, ateliês de impressão e coletivos independentes.

Nos zines aqui reunidos, todos do acervo da Biblioteca de Fotografia do IMS, convivem temáticas diversas: arquivos familiares, diários íntimos, fotografia de rua, investigações sobre gênero, raça e território, registros de festas, manifestações políticas, experimentações gráficas e ficções visuais. Mais do que constituir uma linguagem comum, essas publicações compartilham a mesma disposição para experimentar novas formas de olhar e publicar.

Talvez por esse caráter de obra em constante transformação, a produção de zines é uma prática artística que estimula a ação, mais do que a contemplação. Cada zine parece sempre apontar para o próximo.

A esperança compartilhada com quem entra nesta zona é que a pilha continue crescendo, que visitantes se tornem autores e que, como em todo arquivo vivo, a bagunça instalada no centro desta biblioteca nunca deixe a poeira assentar. 

ZineZona — Exposição de Zines Fotográficos da Biblioteca de Fotografia do IMS Paulista

Datas:
Abertura dia 22 de agosto de 2026, sábado, às 10h
Em cartaz até 05 de novembro de 2026

Local:
IMS Paulista - Avenida Paulista, 2424, Bela Vista, São Paulo, SP

Ingressos:
Entrada gratuita e livre para todas as idades

Horários:
De terça a domingo e feriados das 10h às 20h
IMS Paulista permanece fechado às segundas-feiras
Última admissão: 30 minutos antes do encerramento.

Curadoria
Ângelo Manjabosco (@angelomanjabosco), Miguel Del Castillo (@miguel.del.castillo) e Rony Maltz (@ronymaltz).


Confira mais informações no site do IMS Paulista: ims.com.br

>>>>> <<<<<

Texto publicado por: Daniele Carneiro · @magnoliacartonera
Escritora · Editora independente · Artesã de livros · Criadora do Blog Bibliotecas do BrasilCom informações e imagens de divulgação do IMS Paulista

Livros e zines da Magnolia Cartonera: loja.bibliotecasdobrasil.com
Apoie a Magnolia Cartonera: cada livro ou zine adquirido em nossa loja online colabora diretamente para a produção de novos títulos e a continuidade da nossa editora independente.

Blog Bibliotecas do Brasil · 2026 ·

Você pode gostar também

0 comments

Subscribe