Maya Angelou - 'Uma biblioteca é um arco-íris em meio às nuvens'

14.12.16


No outono de 2010 Maya Angelou, escritora e poeta americana, foi convidada por uma divisão do Harlem para Estudos da Cultura Negra da Biblioteca Pública de Nova York, para falar sobre sua vida em uma palestra. A biblioteca havia adquirido todo seu acervo de escritos, notas e estudos para preservá-los e oferecer para todos a oportunidade de pesquisar toda a genialidade dessa grande escritora norte-americana.
A palestra foi gravada e nós traduzimos um trecho no qual Maya fala sobre a importância de uma biblioteca para uma criança que passou por diversos traumas e que estava sem poder falar. Leia o trecho abaixo ou assista o original em inglês:

Quando parecia que o sol não iria brilhar mais, Deus colocou um arco-íris nas nuvens.
Olhe para ele - olhe para ele! É uma biblioteca - uma biblioteca é um arco-íris em meio às nuvens.
Nós sabemos que uma letrista e poeta afro-americana do século 19 se inspirou em uma passagem do Gênesis. No Gênesis nos contam que a chuva persistiu tão constante que as pessoas pensaram que ela nunca ia parar. E numa tentativa de tranquilizar as pessoas, Deus pôs um arco-íris no céu.
Isso está no Gênesis. Mas no século 19, uma letrista e poeta afro-americana - provavelmente uma mulher, eu não sei - disse: "Não. Deus não pôs somente um arco-íris no céu". Nós sabemos que arco-íris, sóis, luas, estrelas - todas as formas de iluminações - estão sempre no firmamento, mas nuvens podem ficar tão baixas que quem olha não vê a luz. Então Deus colocou um arco-íris dentro das nuvens - no pior dos momentos, nos momentos mais ruins, nos tempos mais horríveis - para que em todos os momentos alguém possa ver uma possibilidade de esperança.
Isso é o que é uma biblioteca.
É maravilhoso para mim, ter sido levada para uma biblioteca quando eu tinha 8 anos. Eu tinha sido abusada e havia retornado para uma pequena vila no Arkansas. E uma senhora negra sabia que eu não estava falando - eu me recusava a falar - durante seis anos eu fui muda por escolha. Ela me levou para a biblioteca de uma escola para crianças negras. A biblioteca tinha provavelmente uns 300 livros. Os livros eram doados para a escola negra por uma escola branca e, geralmente, os livros não tinham capas. Então nós pegávamos madeiras finas, as cortávamos no tamanho de um livro, pegávamos um pouco de algodão e um tecido bonito e cobríamos as madeiras e os amarrávamos na lombada para que os livros ficassem lindos. E estes foram os livros que ela me levou para ver. Ela disse: "Eu quero que você leia todos os livros nessa biblioteca".
Me pareciam que eram milhares de livros. Eu tenho agora, em minha casa na Carolina do Norte, uma biblioteca de mais ou menos 4000 livros. Mas naquele momento, eu pensei, "Eu consigo fazer isso? Viverei o suficiente para fazer isso?" Eu não afirmo que entendi aqueles livros, mas eu li todos eles, e toda vez que eu ia para a biblioteca, eu me sentia segura. Nada de ruim pode acontecer com você na biblioteca.
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Arte: Juliano Rocha sobre foto de Sven Manguard
Texto e tradução: Juliano Rocha
Via: Brain Pickings

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