Manchester Street Poem amplifica as narrativas de vida de pessoas sem teto através da arte em papelão

6.9.21

Manchester Street Poem - Photo: manchesterfinest.com

O coletivo Manchester Street Poem da Inglaterra é um projeto maravilhoso de arte, poesia, criatividade e amizade que eu tive a oportunidade de conhecer no início de 2019, e que tem constantemente me comovido com suas iniciativas artísticas voltadas para a arte em papelão e incentivo à escrita, ampliando a visibilidade das narrativas de vida de pessoas que enfrentaram ou ainda enfrentam vulnerabilidade social, que já viveram nas ruas, e que infelizmente, são sistematicamente excluídas da sociedade e do mundo da arte e da literatura. O coletivo em seu website se define da seguinte forma:

"Manchester Street Poem é um coletivo de arte coproduzido cujas obras refletem as experiências pessoais das comunidades marginalizadas da cidade. Guiados pelo princípio de que 'não há nós e eles - apenas nós', pretendemos promover este ponto de vista através da arte e da narração de histórias, na convicção de que, ao explorar a nossa humanidade partilhada, podemos quebrar barreiras".

Arte expressa através de pinturas em papelão - Photo: @mcrstreetpoem

Manchester Street Poem (MSP) trabalha em várias frentes para gerar um impacto positivo na vida das pessoas, através da realização de workshops de arte em papelão presenciais e também online via zoom. Durante duas edições do MIF (Manchester International Festival) o coletivo realizou a criação de instalações artísticas, murais e exposições junto às comunidades com quem trabalha, em especial pessoas que enfrentam ou já enfrentaram as adversidades de morar nas ruas da cidade. 

Integrantes do coletivo artístico Manchester Street Poem - Photo: mcrstreetpoem.com


Eu sinto uma profunda conexão com o trabalho do Manchester Street Poem, pois o coletivo dá uma nova perspectiva ao trabalho artístico feito com papelão, amplia vozes que geralmente são silenciadas e gera uma via de expressão para pessoas que estão lutando por oportunidades. MSP mostra na prática como é possível expandir o conhecimento e viabilizar as atividades artísticas de forma acessível, inclusiva, sem barreiras e sem preconceitos. 

Tradução do poster: 'A criatividade e a arte nos ajudam a prosperar, não apenas a sobreviver' 

A partir desse trabalho intenso de conversas, narrativas de vida e encontros em que as pessoas têm a oportunidade de fazer artes juntas, Manchester Street Poem nos mostra a riqueza do material artístico que vai surgindo direto das experiências de vida, ao questionar a atual situação da sociedade contemporânea e a forma como ela trata as pessoas que mais precisam de apoio.

"MSP desafia os estereótipos ao se concentrar no que nos une e não no que nos divide, ao mesmo tempo que fornece experiências emocionantes na arte para indivíduos que antes sentiam que o mundo da arte apenas não é para eles." (do site MIF - Manchester International Festival).

Rhona, integrante do Manchester Street Poem ao lado do mural pintado com as palavras dela


O trabalho que o coletivo Manchester Street Poem realiza tem uma forte conexão com o Brasil. Pensando nas pessoas que trabalham coletando papelão nas ruas do Brasil, os coletores de recicláveis, em como seu sustento depende do papelão, e em como infelizmente essa profissão ainda enfrenta um enorme preconceito, o trabalho de Manchester Street Poem me faz refletir sobre o impacto e a importância que teria um projeto como esse ao ser realizado em nosso país, ao valorizar a arte, e as histórias de vida das pessoas que por inúmeros motivos ficam sem moradia. 

A arte é importantíssima para as pessoas, independente de suas origens e caminhadas de vida, e o Manchester Street Poem é uma iniciativa que proporciona novos significados às práticas artísticas e à expressão das narrativas de vida de pessoas que vivem às margens, através de tintas, pincéis e papelão, em um ambiente de amizade, afetividade, aceitação e diversidade humana. O trabalho que MSP realiza é de aquecer o coração.

No poster: "A solidão não precisa ser eterna, apenas um retrocesso temporário. Acredite que dias melhores estão próximos" -  Photo: @mcrstreetpoem


A expansão do papelão como meio de expressão artística está cada vez mais presente no nossos cotidiano. No Brasil em especial, o papelão está em todos os lugares, e serve como base para muitos trabalhos artístiscos e literários, como o trabalho que realizamos com os livros artesanais em nossa pequena editora independente, a Magnolia Cartonera. 

MSP é uma coleção crescente de histórias que ampliam as vozes das comunidades marginalizadas da cidade de Manchester, e essas narrativas são contadas pelas próprias pessoas que as viveram, e que têm experiência em primeira mão do que significa ser sem-teto e serem excluídas pela sociedade. A iniciativa é realizada para conscientizar sobre as adversidades que as pessoas sem teto enfrentam diariamente, além de refletir sobre a desigualdade e sobre a justiça social. O coletivo também reflete sobre questões amplas que as pessoas em situação de vulnerabilidade social enfrentam, entre elas o acesso à moradia, acesso mais facilitado ao sistema de saúde, questões referentes à saúde mental, acesso aos bens culturais e questões relacionadas aos direitos humanos.


A Arte do Manchester Street Poem


"Sem teto, não sem voz" - Photo: @mcrstreetpoem

Caixas de papelão são usadas como telas de pintura para formar grandiosos murais dentro de espaços de exposição como galerias de arte, assim ocupam espaços ao ar livre, no meio de uma praça, no coração do Manchester International Festival - Festival Internacional de Manchester, o festival de artes da cidade. Nesses murais em que o papelão se transforma em enormes telas, são escritos e contados ao público os relatos de vida das pessoas sem-teto de Manchester e região metropolitana. 
É incrivelmente inspirador como o MSP combina muitos elementos que eu amo na arte feita com papelão. A simplicidade de unir uma matéria prima facilmente encontrada pelas ruas e mercados das cidades e o desejo de fazer arte sem barreiras impostas pelos guardiões do mundo da arte, contando suas histórias de vida.

Toni Tolino, artista integrante do MSP  - Photo:  @mcrstreetpoem

Na parte prática, o trabalho do Manchester Street Poem é feito através de instalações e murais montados com centenas de caixas de papelão que são desmontadas, e depois colocadas em todas as paredes, cobrem pilares e o chão, formando um gigantesco mural onde o papelão se transforma em tela para a pintura dos relatos de vida. Neste enorme mural de papelão que é montado durante o festival de artes, as narrativas de vida das pessoas que estão vivendo ou já viveram em situação de vulnerabilidade social, sobrevivendo nas ruas da cidade de Manchester são contadas através da escrita, poesia, desenhos e pintura abstrata.

Os murais do MSP dão visibilidade às histórias de quem se encontra sem-teto na cidade de Manchester Photo: mustardtree.org.uk

MSP oferece ao público a oportunidade de ler e conhecer um pouco mais sobre experiências de vida, além de despertar a empatia do público e promover um novo olhar sobre as vivências humanas. Qualquer pessoa que tiver a oportunidade de ver os murais, seja pessoalmente quando os cartazes estão em exposição, quanto através de seus conteúdos online (através do website, do Instagram e dos vídeos no Youtube) pode se identificar de alguma maneira.

Sheena, Toni Tolino e Lorna, mulheres superpoderosas e artistas talentosas do Manchester Street Poem - Photo: @mcrstreetpoem


Workshop do @mcrsteetpoem no Islington Mill - centro cultural de artes e comunidade

A arte em papelão combinada com os relatos pessoais tem o poder de quebrar barreiras e conectar pessoas. Outro destaque desse projeto maravilhoso, é como MSP promove essa relação da experimentação da arte e da criatividade através do papelão, e como proporciona uma via para o restrito mundo das artes para pessoas que são sistematicamente excluídas dele.



Underworld

Os criadores do coletivo artístico Manchester Street Poem são os artistas Karl Hyde e Rick Smith, músicos mundialmente conhecidos da banda britânica Underworld, e o projeto é mantido com a colaboração de diversas organizações locais e pessoas da cidade de Manchester. A banda Underworld  tem sido um dos artistas eletrônicos mais pioneiros e influentes do mundo por mais de vinte anos. Sua música transcendeu as pistas de dança dos clubes e forneceu trilhas sonoras para tudo, desde filmes icônicos como Trainspotting e The Beach (A Praia) do diretor Danny Boyle, até a cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos de Londres 2012 (para os quais eles foram escolhidos a dedo como diretores musicais).

Rick Smith e Karl Hyde do Underworld - No fundo um mural feito com caixas de papelão e arte de Karl -  Photo: Underworld

Em duas edições do MIF - Manchester International Festival, painéis de papelão do tamanho de outdoors foram criados todos os dias em uma oficina de criação temporária no centro da cidade por Karl Hyde e pela equipe do Manchester Street Poem, com entrada gratuita para quem quisesse conhecer. 

Karl Hyde faz sua arte em papelão - Photo: sevenshuffles.co.jp


Algumas artes dos integrantes do MSP durante os woorkshops online expressam os sentimentos vividos durante a pandemia. O poster diz "Sinto falta de contato físico" - Photo: @mcrstreetpoem

MSP usa o papelão como um meio de expressão artística, servindo como tela onde os relatos de vida das pessoas que passam pelas adversidades de viver sem-teto são pintadas. Os relatos são coletados através de gravações feitas por toda a cidade de Manchester e também são escritos no papelão pelas próprias pessoas que viveram essas histórias. As exposições são multimídia, já que envolvem uma coleção digital de relatos de vida das pessoas que enfrentam a vida sem teto, reunidas no You Tube e também em áudios no website do coletivo para quem quiser ouvir, e a trilha sonora é feita pelo Underworld.

"A falta de esperança é pior do que uma situação ruim" - Photo: @mcrstreetpoem


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Instagram: @mcrstreetpoem



Leia aqui como foi a participação de Dani Carneiro no "Workshop Connect, Create, Build with us" do Manchester Street Poem

Texto: Daniele Carneiro (Magnolia Cartonera | Blog Bibliotecas do Brasil) - 2021

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