Bibliotecas do Brasil em São Paulo: Visitamos a Biblioteca de Fotografia do IMS Paulista

10.4.18



Nós estivemos em São Paulo para ver a Exposição Jean-Michel Basquiat Obras da Coleção Mugrabique esteve em cartaz no CCBB-SP até o dia 07/4, e aproveitamos para fazer vários passeios culturais que Sampa tem para oferecer. Em uma de nossas caminhadas, aproveitamos a oportunidade para visitar a Biblioteca de Fotografia do IMS Paulista, que foi inaugurado há apenas 7 meses. Esse é um relato pessoal da viagem, da nossa visita à biblioteca, com as nossas impressões particulares daquele dia, 29 de março de 2018, e também de outras situações vividas em bibliotecas de São Paulo e Curitiba.


Juliano encontrando seus fotógrafos e artistas favoritos na Biblioteca IMS Paulista
A primeira ação que fazemos ao chegar numa biblioteca para visitar e conhecer os serviços, é procurar a bibliotecária responsável, ou alguma funcionária/funcionário que esteja responsável pelo lugar no momento de nossa visita e perguntar:

Quais são as regras do local para os turistas? Podemos fotografar? Podemos mexer nos livros? Podemos circular pela biblioteca? O que os turistas estão autorizados a fazer dentro da biblioteca?
  


Ao chegarmos no IMS, primeiro visitamos o mirante que há no prédio com uma vista maravilhosa da Av. Paulista. É lindo demais subir ali e ver a cidade se movimentando. Ao mesmo tempo que São Paulo é uma megametrópole, a oportunidade de vê-la de cima dá uma repentina sensação de paz. Foi muito bacana ter essa vista da Avenida Paulista junto à biblioteca, nós realmente adoramos essa parte da visita. Ao entrarmos na Biblioteca de Fotografia, eu me dirigi ao balcão de atendimento e perguntei à pessoa que parecia ser a responsável pela biblioteca naquele momento: "quais são as regras para os turistas?".  Ela foi super gentil desde o início, disse que eu poderia fotografar à vontade as prateleiras, os livros, a arquitetura, o prédio, a vista das janelas, fazer selfies, contanto que não fotografasse os rostos das pessoas que estavam na sala de leitura. 


Algo que achamos bastante pró-ativo no atendimento da Biblioteca de Fotografia, é que assim que chegamos, essa funcionária (seria a bibliotecária?), já estava ali prestando atenção nas pessoas que chegavam e nas pessoas que estavam presentes no espaço. Ela estava atendendo as pessoas que chegavam com perguntas, ou queriam usar a sala de leitura, um espaço bem legal de convivência, onde as pessoas podem pegar os livros das estantes, ou as publicações que já estão disponíveis nas prateleiras próximas aos sofás (veja na foto) e ficar por ali, utilizando as mesas com seus notebooks, carregando seus celulares e tablets e resolvendo seus assuntos. Foi muito fácil conseguir as informações e rapidamente nos sentimos acolhidos.

A livraria e mais atrás o café do IMS Paulista
As pessoas (frequentadoras da biblioteca) estavam todas em silêncio, bastante voltadas para seus próprios assuntos nos notebooks e nos livros, e durante todo o tempo que estivemos por ali (pouco mais de uma hora), ninguém usou o telefone celular em voz alta. Nos pareceu um ambiente bastante gostoso de ficar por um bom tempo, estudando, lendo, pesquisando, escrevendo e colocando as ideias no lugar.

O IMS Paulista proporciona uma vista maravilhosa da Av. Paulista, o centro cultural fica próximo da Rua da Consolação, apenas uma quadra de distância do sebo Passagem Literária da Consolação
Ao longo da Avenida Paulista, são vários os lugares que as pessoas podem entrar para aproveitar arte, cultura e leitura gratuitamente, tomar um café, usar o WI-FI, recarregar seus equipamentos eletrônicos, descansar, fugir das chuvas, e aproveitar a movimentação da cidade. Certeza de que o IMS será parte de nossas paradas nas próximas viagens.


No Natal de 2014, em nossa primeira viagem para São Paulo, o IMS Paulista estava sendo construído, a gente já tinha a expectativa de conhecer essa biblioteca há alguns anos


Sua biblioteca é amigável com turistas e visitantes eventuais?

Quando viajamos e reservamos algumas horas dos nossos dias de viagem para nos dedicar inteiramente a conhecer espaços de leitura e bibliotecas, precisamos nos informar sobre as regras para turistas, para termos acesso aos serviços que esses locais disponibilizam para visitantes eventuais, de poucos dias ou de poucas horas, como era o nosso caso, e que não são ligados burocraticamente ao local através de documentos - como a carteirinha - ou pagamento de taxas. 
Na Biblioteca do IMS Paulista, fomos atendidos por três funcionárias, a primeira nos recebeu logo na escada, indicando onde deveríamos subir para guardar nossas mochilas e começar a visita pelo prédio. No balcão guarda-volumes, onde deixamos as mochilas, também fomos atendidos com gentileza, o que é muito bacana, já que o prédio em si, pode ser meio intimidante para pessoas que não estão acostumadas com as escalas gigantescas de todas as coisas, como é quase tudo em São Paulo. Fomos atendidos com gentileza, as informações nos ambientaram ao espaço, o que nos gerou uma sensação de normalidade - muito diferente de como estamos acostumados a ser atendidos em algumas das bibliotecas e espaços públicos aqui em Curitiba - escrevo mais sobre essa questão ao longo desse texto.

O acervo de livros da Biblioteca de Fotografia do IMS Paulista
Na Biblioteca do IMS Paulista, eu fui ao encontro da funcionária (possivelmente a bibliotecária) que estava no balcão de atendimento naquele momento, e ela já me recebeu muito bem, foi atenciosa, prestativa, explicou de bate-pronto o que eu poderia fazer dentro da biblioteca, me mostrou onde ficava o banheiro caso eu precisasse, foi um atendimento ótimo, e eu senti bastante integrada ao local após essa conversa. Nessa troca, eu me senti acolhida, e quebrou um pouco daquela sensação que considero o choque cultural de estar em um lugar tão grande, tão moderno, e que pode ser um pouco intimidador, já que é tão diferente de tudo que estamos acostumados a experimentar aqui em Curitiba (tanto na grandiosidade, quanto na questão do atendimento mesmo). Nessa conversa com a funcionária eu já me senti mais relaxada para conhecer a biblioteca sem me sentir em desarmonia com o lugar. Durante aquele período que eu estive na Biblioteca de Fotografia eu me senti bem-vinda.


Os livros de teoria e história da arte (nossos favoritos) ficam nas prateleiras mais altas dessa estante, como você pode ver na foto (o Juliano tem 1,75 de altura), não estão acessíveis para a gente pegar por conta própria. Para acessá-los teríamos que chamar um dos funcionários da biblioteca, para subir numa escadinha e pegar os livros para nós. Como estávamos somente de passagem, para conhecer a biblioteca e os seus serviços, não nos sentimos confortáveis de pedir para o rapaz que estava fazendo esse serviço de reposição dos livros, para pegar alguns exemplares e descê-los para nós. Mesmo sabendo que as pessoas estão ali para fazer esse serviço, nos pareceu muito trabalhoso chamar alguém para subir numa escadinha, e pegar vários livros que olhamos com uma vontade bastante gulosa, mas que estavam lá no último nicho da estante, sendo que em poucos minutos estaríamos fora dali. Muita trabalheira. Quem sabe numa próxima vez, se passarmos mais horas lá dentro, tomamos "coragem" de pedir para alguém descer uns volumes pra gente. Poderia ter uma alternativa mais acessível para ver os livros de teoria e de história da arte que estão lá no topo da estante nesse caso. 

Os funcionários da sua biblioteca são pró-ativos para atender as pessoas?

No ano passado visitamos uma biblioteca pública localizada em uma das mais famosas praças turísticas de Curitiba. Nosso interesse era apenas verificar se na biblioteca havia alguns livros que estávamos procurando, porque já conhecíamos o espaço, então não haveria necessidade de perguntar as regras para fotografar. Havia três funcionárias no local. Uma delas estava fazendo um levantamento de produtos de limpeza, a segunda olhava o celular e a terceira mexia com papéis de origami. Um grupo de 6 pessoas de Minas Gerais chegou no mesmo instante em que a gente. Junto com a biblioteca (que é uma sala) tem mais duas salas, sendo uma onde ficam algumas exposições e a outra é uma lojinha. O local ficou "lotado" com a chegada de 8 pessoas, mas ainda assim, havia número de funcionárias para atender todo mundo. Logo que entramos na biblioteca, tomamos aqueles olhares fulminantes, mau-humorados e inquisitivos das 3 funcionárias, o que já nos situou no "clima da biblioteca". Ignoramos o comportamento nada hospitaleiro, e continuamos vendo quais eram os livros de budismo do acervo. O grupo de turistas mineiras ficou na ante-sala (de exposições) da biblioteca. As turistas chegaram a vir até a porta da biblioteca, olharam para dentro do local, conversaram e fizeram várias perguntas sobre o espaço entre elas mesmas: "Será que é uma biblioteca ou é uma loja? Pode tirar foto? Os produtos dessa sala estão à venda? Não tem ninguém na lojinha para atender?" As mulheres queriam tirar fotos do espaço, e as duas funcionárias que não estavam mexendo nos produtos de limpeza, permaneceram imóveis, como se fossem invisíveis ou estátuas, e não levantaram os rostos do celular e dos papéis para atender o grupo - mesmo ouvindo nitidamente que elas estavam interessadas em conhecer mais sobre o local, receber informações, tirar fotos e levar uma boa memória de Curitiba para casa. As pessoas ficaram intimidadas de passar da porta para ver os livros e conhecer o espaço. O clima ali dentro  passava uma mensagem muito explícita de que ninguém era bem-vindo, e que mesmo com interesse em conhecer o local, sequer receberia atendimento. Após alguns minutos sendo ignoradas, elas saíram sem nenhuma informação sobre a biblioteca, e sem comprar nada na loja de produtos orientais que fica dentro do mesmo prédio - até mesmo porque não tinha ninguém atendendo na lojinha. Eram 3 funcionárias para atender um grupo de 8 pessoas, e o total de zero pessoas receberam qualquer tipo de atendimento nessa biblioteca.

Quais são as regras para os turistas em bibliotecas e espaços de leitura? 

Eu contei nas histórias do Instagram (acompanhe nossas novidades por lá) sobre uma experiência ruim que tivemos em uma das maiores e mais famosas bibliotecas públicas de São Paulo, numa viagem que fizemos à cidade no inverno de 2015, onde ao fotografar a luz do sol que estava entrando por uma das janelas da biblioteca iluminando as estantes de livros, eu fui abordada de uma forma feroz por uma funcionária. 
No momento em que ela me abordou, ela fez o gesto de arrancar o celular da minha mão. Se eu não tivesse me esquivado, ela teria arrancado o celular da minha mão. Ela me acusou de estar fotografando os rostos das pessoas (o que não era verdade, eu estava fotografando o teto e a luz que entrava pelas janelas). Ela não tentou me explicar as regras da biblioteca ou sequer me passar orientações sobre o uso de celulares. O que ela fez foi se aproximar de forma muito agressiva (veio pra cima de mim) e tentou arrancar o celular da minha mão. Foi desrespeitosa e me falou uma série de coisas muito desagradáveis, demonstrando ser uma pessoa bastante despreparada para lidar com a situação. Eu tive que pedir para ela se acalmar. E quando tentei conversar, trazendo ela de volta para a realidade, ela ficou o tempo inteiro olhando fixamente para o meu celular na minha mão, com a respiração ofegante, como se ainda quisesse arrancá-lo de mim. Ela não me ouviu, mas me acusou e me escrachou. Foi um dos momentos mais atordoantes e constrangedores de todas as nossas visitas às bibliotecas e espaços públicos. Eu nunca publiquei a foto, e antes dela me abordar eu havia apenas fotografado as capas de 2 livros. Estávamos dentro da biblioteca por poucos minutos, e saímos imediatamente após a situação, para não termos nosso dia totalmente arruinado por uma pessoa que não deveria estar trabalhando com o público. Eu perdi a vontade de estar dentro daquele lugar, e  principalmente, arrependida de ter entrado lá para começo de conversa. Não pretendo voltar a visitar essa biblioteca, e mesmo vendo que há pessoas que admiramos que fazem eventos e encontros literários lá, foi a pior impressão que ficou comigo. Na porta do banheiro também naquela época tinha um cartaz que discriminava pessoas em situação de rua. O casal de seguranças que cuidava do guarda-volumes da biblioteca ficou totalmente surpreso por a gente ter entrado e saído sem ter de fato andado pela biblioteca. Nós fizemos uma ficha de entrada com eles minutos antes, mostramos nossos RG's e declaramos de qual cidade éramos, e eles acharam bacana a gente ser de outra cidade e ter escolhido a biblioteca para fazer uma passeio cultural, valorizando o espaço. Mas no final nos arrependemos muito de ter entrado lá. Deveria ter saído assim que vi o cartaz preconceituoso contra pessoas em situação de rua na porta do banheiro.
Por causa desse episódio ruim, eu mudei minha atitude, e para me precaver, passei a perguntar em todas a bibliotecas, espaços de leitura, centros culturais que tenham bibliotecas e salas de leitura que a gente visita, antes de qualquer coisa, "posso fotografar?" e "quais são as regras para os turistas?". Observar os serviços e atendimentos prestados para pessoas, visitantes, leitoras e leitores virou parte do nosso trabalho, como incentivadores da leitura e principalmente como apoiadores de bibliotecas e espaços de leitura. A partir dessas experiências e de várias outras experiências, nós publicamos pela Magnolia Cartonera a Zine Biblioteca do Brasil - Atividades para a Comunidade Externa, onde refletimos sobre serviços que bibliotecas prestam (e podem prestar) para pessoas e visitantes eventuais, que estão só de passagem pelo local e não vão ter um vínculo burocrático como a carteirinha, mas que querem estar na biblioteca por um certo período de tempo.


Quando o atendimento em uma biblioteca é acolhedor, vale a visita.

Informações do site do IMS Paulista para quem quiser conhecer a Biblioteca de Fotografia

 A Biblioteca de Fotografia é de livre acesso ao público, que poderá consultar diretamente a parte do acervo localizado nas estantes do piso principal. As publicações raras poderão ser acessadas mediante solicitações prévias, exceto aos sábados, domingos e feriados. A Biblioteca não empresta livros, a consulta deve ser feita no local. A última admissão acontece 30 minutos antes do horário de encerramento das atividades. É possível agendar uma pesquisa, solicitar um livro previamente, enviar sugestões de aquisição e registrar perguntas, reclamações ou comentários através do e-mail de contato. A biblioteca possui também assinaturas das revistas ZUM, Aperture, FOAM, Exit, British Journal of Photography e Artforum, e dos jornais El País (Espanha, digital) e The New York Times (EUA, digital). Recursos online dos mesmos estão disponíveis para os usuários nos terminais de consulta; informe-se no balcão de atendimento.

Endereço: Av. Paulista, nº 2424 - Bela Vista, São Paulo - SP, CEP: 01310-300. Contato: (11) 2842-9132 | biblioteca.fotografia@ims.com.br | Consulta de obras gerais: De terça a domingo, inclusive feriados, das 10h às 20h. Às quintas, exceto feriados, das 10h às 22h. Obras raras e especiais: Consulta de terça a sexta, das 10h às 20h. Sábados e feriados, das 10h às 18h. Domingos não é possível consultar.

Texto: Daniele Carneiro | Bibliotecas do Brasil
Fotos: Juliano Rocha e Daniele
Email: contato@bibliotecasdobrasil.com

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