Leia mulheres negras: Livro de cultura afro-brasileira escrito por autora negra é banido no Sesi Volta Redonda (RJ)

20.3.18


No dia 18 de março, uma revoltante e grave denúncia foi feita em postagem visível ao público nas redes sociais por Juliana Pereira de Carvalho, mãe de um aluno do Sesi Volta Redonda no Rio de Janeiro. O livro Omo-Oba: Histórias de Princesas da autora Kiusam de Oliveira foi banido de sala de aula porque alguns pais/mães questionaram o conteúdo do livro por acharem que o livro tem um cunho religioso - questão que a autora Kiusam aprofundou em sua resposta ao banimento do livro. Juliana, a mãe do estudante do Sesi Volta Redonda escreveu em seu perfil:

"Durante essa difícil semana, a escola de meu filho enviou esse comunicado. Me sinto na obrigação de compartilhar com o maior número possível de pessoas. Sempre que me deparo com esse tipo de questionamento o sentimento é de perplexidade. Acredito ser de fundamental importância que a equipe pedagógica esclareça esses pais. não falo apenas pelos meus filhos negros, mas para além da necessidade imediata da visibilidade afro-descendente, precisamos formar pessoas que se sensibilizem e busquem uma sociedade mais justa. É FUNDAMENTAL ESCLARECER ESSES PAIS SOBRE O CONCEITO DE CULTURA, BEM COMO INFORMÁ-LOS SOBRE A LEI 11.645/08."


Em um recado enviado aos pais pela Coordenação Pedagógica do Sesi Volta Redonda no dia 15/03/2018, é informado que foi recebido um "questionamento" de alguns pais em relação ao conteúdo do livro Omo-Oba: Histórias de Princesas da autora Kiusam de Oliveira. O recado ainda informa que a Gerência da Educação Básica, responsável pela escolha do material, autorizou a Coordenação Pedagógica do colégio a "fazer a troca" do livro. Sem dar mais detalhes, explicaram para familiares que já haviam comprado o livro, que as crianças seriam divididas em grupos de trabalho de acordo com o material recebido, e que até a próxima semana enviariam aos pais o nome do novo título escolhido.

Kiusam Oliveira é autora do livro Omo-Oba: Histórias de Princesas que celebra a cultura afro-brasileira com o objetivo de fortalecer a personalidade de meninas

A escritora Kiusam de Oliveira se manifestou no Facebook em defesa de sua obra:

"DENÚNCIA: Agora estamos na era da caça às publicações que tratam da cultura afro-brasileira. Meu livro Omo-Oba: Histórias de Princesas (Mazza Edições, 2009), por sinal, altamente premiado, foi caçado ao ser adotado pelo SESI VOLTA REDONDA (RJ) quando pais fundamentalistas procuraram jornais e setores da educação para denuncia-lo por tratar de princesas africanas. A postura do SESI foi simplesmente trocar por outro livro. Omo-Oba é um livro que privilegia o recontar de mitos africanos pouco conhecidos pelo público brasileiro em geral. O livro apresenta seis histórias de rainhas, na figura de princesas, com o objetivo de fortalecer a personalidade de meninas, independente de raça/cor, etnia, condições socioeconômicas. Tais rainhas são nossas ancestrais, uma vez que há comprovações científicas de que África é o Berço da Humanidade. A forma com que eu as apresento neste livro é sem nenhuma conotação religiosa, mergulhadas que estão na história e nos aspectos da cultura afro-brasileira, através de uma narrativa com personagens negras cheias de afeto e de empoderamento, o que é uma raridade em bibliotecas brasileiras. Ele atende perfeitamente as leis 10.639/03 e 11.645/08 que obriga o ensino da História da África e das Culturas Afro-brasileira nas escolas em todos os seus segmentos. O livro é altamente premiado, além de ser um espelho para o ser negro no país. Fui professora da Educação Infantil por 23 anos e atualmente sou professora na Universidade Federal do Espírito Santo, dando continuidade ao meu trabalho de fortalecimento e formação de crianças, jovens e adultos negros. Durante estes anos, foram várias as situações de confrontos de alunos negros com a ausência de príncipes e princesas como eles nas literaturas infantil e juvenil brasileira. Assim sendo, resolvi publicar histórias de rainhas negras que fazem parte da história, da cultura e da HUMANIDADE. Pode parecer pouco, mas num país racista e eurocêntrico como o Brasil, tais princesas têm sido a defesa de crianças negras na luta contra a sua invisibilidade, a discriminação racial e o racismo. Ao SESI que adotou o livro, parabéns, mas ao mesmo SESI que o alterou no momento de manifestações contrárias sem que efetivamente tivesse exercido um papel educador e transformador eu digo, sinto muito. Mas sinto muito mais pelas crianças negras que continuam como fantoches nas mãos de professores/as e profissionais da educação totalmente despreparados/as para lidar com as práticas racistas como vemos nesse caso, onde raramente a educação pensa um projeto que combata de frente, o racismo, tendo em vista o bem-estar da criança, do jovem e do adulto negros que ocupam os espaços escolares. Continuamos, assim, a ver um país de pretos sendo manipulados por brancos, pretos sendo exterminados por brancos. E assim, o golpe... aquele golpe branco, continua a pautar o extermínio da população negra. O que nos cabe? Estarmos juntas e juntos combatendo o fascismo, a opressão, a ditadura de forma visceral. Somos alvos e vítimas daqueles coxinhas que tanto apostaram num país melhor!"
Contracapa do livro Omo-Oba: Histórias de Princesas
Para todas as pessoas que se consideram incentivadoras da leitura, precisamos nos conscientizar, e colocar em prática em nossas plataformas, redes sociais e no nosso dia a dia, a importância de aumentar a visibilidade das escritoras negras, a importância de ler mulheres negras, de divulgar e de fazer circular suas obras. Esse episódio de banimento de um livro baseado na opinião de pais e mães intolerantes é mais uma forma de inviabilizar escritoras negras, uma tentativa de calar suas vozes e suas obras intelectuais. É nosso dever como incentivadores da leitura e da livre circulação de livros repudiar ações como a do Sesi Volta Redonda. Precisamos iniciar e manter conversas significativas e debates com nossas comunidades leitoras sobre autoras negras e a censura que é praticada dentro das escolas, contra seus livros. Precisamos cada vez mais da presença de livros sobre diversidade nas escolas e nas bibliotecas de todas as modalidades. Apoiamos as palavras da autora em defesa de sua obra e sua indignação com o ocorrido. O blog Bibliotecas do Brasil manifesta seu apoio à escritora Kiusam de Oliveira.

Acompanhe o Facebook da autora.


Reação em sala de aula por Cristiane Tavares
"Hoje, no curso de Pedagogia para o qual dou aula, o cronograma regular da disciplina foi modificado para discutirmos a censura ao livro de Kiusam de Oliveira na escola SESI de Volta Redonda-RJ. O roteiro foi o seguinte:
- fizemos a leitura de um conto do livro OMO-OBÁ - Histórias de princesas africanas;
- lemos a carta do SESI enviada aos pais quando decidiram substituir o livro, atendendo ao pedido de um grupo de pais evangélicos;
- ouvimos o áudio da autora manifestando sua indignação;
- lemos o comunicado oficial da direção do SESI voltando atrás com relação à substituição do livro.
Faltou ouvir diretamente alguma manifestação do grupo de pais.
O que pautou nossa discussão foi a fragilidade das argumentações, tanto por parte dos pais, quanto por parte da escola, em seu posicionamento inicial. Retomamos alguns princípios constitucionais básicos: Estado laico, lei de diretrizes e bases, lei 11.645/08 que institui o estudo da cultura e da história africana e indígena na escola. Além disso, discutimos conceitos importantes, como livro literário x livro paradidático; mitologia x religião. Foi uma conversa valiosa!"
Atualização - 21 de março de 2018 | 23h27

Kiusam de Oliveira irá interpelar MEC sobre ensino da história e cultura afro-brasileira

O CEN Brasil - Coletivo de Entidades Negras publicou em seu site uma nota informando que a autora "irá lançar uma petição pública, de âmbito nacional, objetivando interpelar o MEC acerca da aplicação dos arts. 26A e 79B, da Lei de Diretrizes e Bases da Educação – LDB, que tratam do ensino da História e Cultura Africana e Afro-brasileira. Conclamamos aos interessados na implementação dos arts. 26A e 79B da LDB , que assinem a petição on-line, que estará disponibilizada a partir do próximo dia 31 de março de 2018 no site do CEN – Coletivo de Entidades Negras (www.cenbrasil.org.br), entidade que está apoiando essa luta incansável por uma escola que combata o Racismo e seja verdadeiramente inclusiva". 



A escritora Kiusam de Oliveira fez um novo post em seu perfil no Facebook comentando o banimento do seu livro pelo Sesi Volta Redonda.
"No caso SESI, fico pensando: se uma decisão foi coletiva e amplamente estudada e criticada, ela deveria ter sido mantida pelos profissionais da educação, em nome de um coletivo, levada para uma reunião de gestores para lá, ser amplamente discutida a fim de tomarem uma decisão coletiva. De qualquer forma, os danos para mim, para meu livro, para as africanidades e para o país são irreparáveis, não menos são irreparáveis as consequências para a rede SESI uma vez que várias outras situações de intolerância na rede foram apontadas nos relatos que tantas pessoas fizeram atônitas com tal postura. Sim, não tem como voltar atrás. Atrelei, ao pedido de retratação do SESI, que banquem a minha ida e estadia no RJ, para participar ativamente de processos de formação com os profissionais da rede, conversas e formações com os pais, mães e estudantes além de fazer muitas contações das minhas histórias. Espero que isto se cumpra por parte da gerência. Uma última questão: será que os pais e mães se sentiriam fortalecidos para impedir a indicação de um livro falando sobre os deuses gregos ou as deusas gregas, celtas? À tal postura dou um único nome: RACISMO. E essa erva daninha precisa ser banida das sociedades porque ela causa mortes física, psíquica e emocional já em crianças da mais tenra idade, em se tratando de Brasil, e pais e mães de crianças negras sabem muito bem do que estou falando. A luta é árdua e precisamos estar atentos e no front. O fascismo caminha sempre de mãos dadas com o racismo e muitas pessoas estão achando tudo isso lindo. Estamos na DITADURA, em tempos de CENSURA. E quem ainda não percebeu isso?"

Daniele Carneiro - Bibliotecas do Brasil
contato@bibliotecasdobrasil.com
Fotos: Kiusam Oliveira e Juliana Pereira de Carvalho

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