Vento Norte Cartonero, Santa Maria/RS

28.9.15


Que sensação maravilhosa é a de receber um pacotão lotado de livros cartoneros pelo correio. Na semana passada chegou aqui no blog Bibliotecas do Brasil essa coleção preciosa com os livros da editora cartonera de Santa Maria, a Vento Norte Cartonero, enviada pelo Fernando Villarraga-Eslava. Nas fotos, os livros maiores são da Vento Norte, e os pequenos são da Amaru Cartonera do Peru. Fernando nos contou o seguinte: "Nós mandamos um exemplar de cada título como uma maneira de expressar nossa solidariedade com o belo trabalho de vocês. Há pouco tempo recebi vários livros de Amaru Cartonera (Peru) para minha biblioteca cartonera, mas como sei que vocês promovem o livro e a leitura, quero mandar dois exemplares, vão gostar porque são trabalhados como se fossem origamis, eles chamam de 'libro que gira'''.

Detalhes dos livros cartoneros da Vento Norte e da Amaru Cartonera

Aproveitamos a oportunidade para conversar com o Fernando sobre a editora Vento Norte Cartonero e sobre o grande prazer de se fazer livros cartoneros. Publicamos na íntegra as palavras do Fernando:

"O projeto de Vento Norte Cartonero nasce de uma experiência anterior e da necessidade vital de seguir fazendo aquilo no qual se acredita. Explico: Em setembro de 2013 um grupo de cinco pessoas nos reunimos e criamos Maria Papelão Editora, com o objetivo de criar em Santa Maria um espaço alternativo e independente para publicar livros com capas artesanais, fosse de autores já editados ou inéditos, na mesma linha de outras cartoneras de América Latina e cuja inspiração sempre foi Eloísa Cartonera, a primeira experiência de tal tipo que se deu em 2003 em Buenos Aires, no momento em que a Argentina estava passando por uma forte crise herdada sobretudo do governo Menen. 

Então, ao longo de um ano conseguimos publicar cinco livros de autores e de gêneros bem diversos, ao mesmo tempo em que realizamos diversas oficinas em escolas públicas, com a ideia de mostrar o processo de elaboração de um livro, e tentar desmitificar o livro como um objeto sagrado e distante. Com essas duas frentes de trabalho nos mantivemos ao longo de um ano, só que em certa altura começaram a surgir, o que acontece muitas vezes nos grupos humanos, certas divergências sobre a concepção, a linha e o agir editorial".

Detalhe do 'livro que gira' da Amaru Cartonera

"Por isso, Luiza Casanova e eu decidimos sair em outubro de 2014 para criar um outro projeto tendo os mesmos pressupostos que mantivemos em Maria, para o qual convidamos mais duas pessoas, uma das quais era nossa colaboradora, coisa que aconteceu em novembro de 2014. Assim, desde esse momento fomos articulando a Vento Norte Cartonero, vendo que títulos iriamos publicar, a materialidade do livro no que diz respeito ao papel e à diagramação, a estética das capas, e o mais fundamental, o caráter da editora, já que para nós não se pode renunciar ao princípio da independência, o que implica não manter nenhum vínculo nem apoio institucional de qualquer espécie. Daí que nosso projeto se defina como autogestionário, dependemos exclusivamente das vendas dos nossos livrinhos, o que fazemos nos diferentes espaços por onde circulamos, seja de maneira pessoal ou como grupo quando participamos de alguns eventos".


"As pessoas que integravam o que chamamos de Coordenação Editorial eram quatro, mas em dias recentes se incorporou mais uma, por isso hoje está constituída por cinco pessoas. Claro que também temos uma equipe de colaboradores, os quais entram em ação de diversas formas, seja quando realizamos as capas em mutirão, já que convidamos a quem queira pintar, seja na hora de executar outras tarefas que envolvem toda a produção dos livros. 
Inclusive, contamos com o apoio solidário de quem fez a tradução de um texto que publicamos, uma pessoa que se ofereceu para traduzir também três livros de poesia de autores brasileiros para uma outra cartonera de Equador. Enfim, trata-se de um grupo que acredita na proposta de Vento Norte Cartonero e que entende que só pela ação coletiva é possível materializar a mesma. De forma geral todos estamos ligados ao campo universitário como sujeitos individuais, mas nosso agir está voltado para a comunidade da nossa cidade, com algumas incursões fora de Santa Maria, já que temos realizado oficinas na Argentina e Chile, por exemplo".


Importância das editoras cartoneras: projeção sem travas de vozes e linguagens silenciadas

"A importância de uma editora de publicações cartoneras reside, quiçá, no que oferece em termos de possibilidades, não apenas para que alguns autores novos possam publicar sem os trâmites costumeiros de uma editora comercial, mas para que vozes e linguagens silenciadas tenham um espaço para sua projeção sem travas de nenhuma índole. 
Em tal sentido é bom dizer que nossa editora não se pensa como concorrente do mercado, seria ridículo imaginar que teríamos força para isso, e nem é o que pretendemos; apenas estamos tentando criar um espaço alternativo onde a lógica não é comercial, um espaço no qual confluem nossos livrinhos e um público que aos poucos vamos criando, composto por pessoas, inclusive, com pouca ou às vezes nenhuma relação com o livro e a literatura". 


Preços populares

"Por isso é que vendemos todos os títulos a preço muito baixo, até agora à 10 reais, para que os que têm menos recursos possam ter mais acesso ao que editamos, dinheiro com o qual fazemos o projeto sobreviver. É que por lógica não cobramos nada dos autores e em retribuição 'pagamos' o 20% da edição, que é sempre a mesma, tiragem de 150 exemplares, assim nossos autores recebem 30. 
E aqui é importante ressaltar a atitude de alguns escritores que têm nos oferecido seus materiais para publicar, sobretudo porque eles têm uma trajetória e reconhecimento no cenário literário nacional, como é o caso de Zuca Sardan, Francisco Alvim, Bruno Brum e Douglas Diegues, e na esfera internacional o de Mário Bellatin, um dos nomes mais relevantes da atual narrativa hispano-americana".

Fernando com Seu Valmir nas ruas de Santa Maria negociando papelão

Planos para o futuro: história coletiva e pessoal dos catadores de recicláveis de Santa Maria

"Claro que isso tem sido algo circunstancial em virtude das relações que temos com eles, ou de contatos feitos graças à mediação de algum amigo ou colaborador. Todavia, temos em mente desenvolver um projeto com uma associação de recicladores aqui de Santa Maria. A ideia é que os integrantes da mesma possam contar sua história coletiva e pessoal, para que se transforme num livrinho cartonero. Estamos ainda na fase inicial mas motivados para concretizar o que nos parece que ajudará a dar maior consistência social ao nosso fazer cartonero".


Oficinas de livros cartoneros: inventar uma metodologia partindo do zero

"Para nós as oficinas de livros cartoneros são algo vital porque as assumimos como uma obrigação ética, perante o quadro precário que vive a educação pública nacional. E como um desafio para inventar uma metodologia partindo do zero. Na verdade, o que temos constatado é que há uma carência enorme de atividades criativas e lúdicas nas escolas, tanto municipais quanto estaduais, e é evidente que a culpa não é dos professores que nelas trabalham. A questão é bastante complexa. Mas cada vez que nos invitam, observamos que os alunos não criam quase nenhuma resistência para entrar no jogo de ler textos literários, pois sempre levamos um folheto com uma seleção de poemas e contos que serve como miolo do livro a ser elaborado, escrever frases com a palavra papelão, um exercício que está incluído na dinâmica da oficina, pensar um título para o conjunto de textos e pintar as capas com total liberdade". 



"É comum o comentário que escutamos dos próprios professores de que certos alunos são muito agitados em sala de aula, por isso a surpresa quando os vem em plena ação com o pincel ou um lápis de giz, pois ficam concentrados e felizes na hora de criar os desenhos e colorir. Isso nos faz pensar como os modelos educativos implementados e as condições da educação pública estão quase falidos no nosso país". 


Liberdade artística e textual


"Sobre a liberdade artística e textual devo dizer em primeiro lugar que nenhum integrante da equipe é artista plástico ou coisa parecida. Nós nos damos o direito da total liberdade na hora de elaborar as capas. Claro que sempre discutimos em função do título e conteúdo da obra como agir de acordo com uma diretriz geral. É que temos aprendido muito com o que se faz em cada experiência de pensar um livro como totalidade. São 150 capas diferentes de cada título. E se até o momento lançamos sete, é só fazer a conta para entender como se precisa de muita criatividade, sem restringir jamais os mecanismos de expressão porque na variedade de soluções plásticas reside muito a sedução que nossos livros exercem. Porque para nós os momentos de cortar o papelão, pintar as capas, colar os livros e vender nossos exemplares é uma tarefa muito lúdica e prazerosa. 

Já sobre a liberdade textual temos bem claro que como editores, algo que estamos aprendendo a ser, Luiza e eu até agora editamos 12 livros, contando os de Maria Papelão, não podemos operar com os mesmos critérios de uma editora convencional. Procuramos assim ser bem abertos em relação às linguagens e visões de mundo que distinguem os materiais que recebemos para serem analisados e aprovados e que logo publicamos. Entende-se por lógica que os livros editados devem apresentar um olhar crítico sobre o mundo e projetar valores cônsonos com a dignidade humana".



Editoras cartoneras mundo afora

"São várias as editoras cartoneras que deveriam ter uma maior divulgação de seu trabalho no Brasil. A começar por Dulcinéia Catadora de São Paulo, por ser a primeira que aqui se criou e pelo belo trabalho que desenvolve, pois envolve uma cooperativa de catadores da cidade. De igual maneira seria muito bom conhecer o trabalho que realiza Amaru Cartonera do Peru, com seus belíssimos livros e seu accionar constante por todo o país fazendo oficinas de livros e de leitura. Uma ação parecida com a que faz La Regia Cartonera de México sempre promovendo a leitura e confeccionando capaz de extrema beleza. Laura Fernández que é a pessoa que faz acontecer essa cartonera. Ainda incluiria a Editora Cartonera Amarillo Rojo y Azul da Argentina por seu trabalho delicado em escolas incentivando as crianças a pintar e escrever. La Joyita Cartonera de Chile, pode entrar em contato com elas, elas escrevem poesia e tocam a editora. A lista é grande mas as indicaria para uma primeira amostra do fazer cartonero em diversos pontos da América Latina.


A representatividade das mulheres no mundo cartonero

Um detalhe a ser indicado é que muitas cartoneras têm nome de mulher: Eloísa, Sarita (que não existe mais), Maria (que não existe mais), Amapola, Sofia, Dulcinéia, Olga, Isidora, Aída, Verônica, Juanita, etc. Posso dizer que quase todas as cartoneras não só tem forte presença feminina, mas em muitas as mulheres constituem o núcleo central, inclusive várias funcionam só com mulheres. No caso nosso a equipe inicial era integrada por três mulheres e um homem, composição que se alterou recém com a incorporação de um companheiro, somos cinco agora. Por outro lado, diversas editoras cartoneras se identificam porque suas realizadoras também escrevem, como acontece, por exemplo, com as duas articuladoras de La Joyita de Chile que já publicaram seus próprios livros de poesia. E é que a poesia parece ser o gênero que resulta mais destacado na produção da literatura cartonera quando se revisam seus catálogos. Na equipe atual de Vento Norte Cartonero temos uma integrante que já publicou um livro de narrativa, Luiza Casanova, Tempo Embalado Para Apodrecer, sob o selo de Maria Papelão, um livro que teve de ser reeditado três vezes e que consideramos nosso best seller, e que será lançado novamente por nós". 

Fernando, Luiza, Camila e Simone

Potencialidades dos livros cartoneros

"Creio que uma das coisas mais importantes que se deve ressaltar em relação ao trabalho cartonero é o de suas potencialidades. De maneira geral percebe-se que quase todas as editoras cartoneras concentram sua ação na publicação de textos literários, com ênfase especial na poesia, cada uma de acordo com seus critérios, coisa que para mim resulta muito válida, porque também está em jogo a própria autonomia das mesmas para traçar os rumos que se acreditem sejam os mais pertinentes. Querendo ou não com isso se dá uma ampliação do espaço para a emergência de vozes e linguagens porque os pressupostos são variados. A cada uma interessa colocar em circulação o que considera relevante e válido. 
Mas diria que essa é apenas uma das possibilidades dos projetos cartoneros. É que não têm porque ficar restritos ao âmbito do literário. Na Espanha por exemplo, temos duas voltadas para a publicação de textos que abordam questões relacionadas com movimentos políticos e sociais, que narram experiências comunitárias ou fatos de importância histórica. Sei de outras duas que estão ligadas a atividades de voluntários em presídios. Por isso, o que assinalo é que existem muitas possibilidades a serem desenvolvidas no campo da ação cartonera, já que resulta relativamente fácil criar uma editora de tal natureza para ser destinada a coisas culturais, identitárias, comunitárias, etc". 


Autogestão

"Só se precisa então de um pouquinho de imaginação, persistência, disposição, papelão, tinta, pinceis e uma equipe que tenha convicção para tocar o barco. Hoje a tecnologia ajuda muito a reduzir os custos. E pela nossa própria experiência com duas cartoneras, Maria e Vento, tudo se pode realizar de maneira autogestionária. Enfim, o que vejo é que recém se começa a descobrir e explorar as possibilidades que o cartonerismo nos dá para impulsionar intervenções no mundo literário, cultural, social e político.

Vento Norte Cartonero foi criada por quatro pessoas. Uma delas é Luiza Casanova, minha companheira de cartonerismo desde Maria, formada em letras, cursando agora seu mestrado, e muito envolvida com o processo da escrita narrativa, embora só tenha publicado apenas um livro, Tempo Embalado para Apodrecer. A outra é Camila Moresco Pozzebon, formada em pedagogia, fazendo maestria na área, com interesse nas atuais metodologias de ensino. Ela era colaboradora constante na época de Maria Papelão e de suas mãos saem sempre belas capas. Simone Minuzzi é a terceira integrante. Formada em comunicação, está agora quase terminando seu curso de letras. Ela é nossa grande diagramadora, fotógrafa, vídeo-maker, costureira e capista.  E aqui merece o reconhecimento por ser a responsável pela marca e aspecto editorial que distingue nossos livrinhos. Em tempos recentes passamos a ser cinco com a integração de Anderson Trindade Chaves. Ele é formado em letras, e como Camila era colaborador também de Maria Papelão. E eu, Fernando Villarraga-Eslava, que nasci numa cidade recriada por Guimarães Rosa no conto "Pâramo", mas que por essas coisas misteriosas da vida andei por vários lugares da América Latina. Sou formado em letras e me interesso muito por certas expressões literárias das margens sociais e humanas. E claro, aqui não posso deixar de mencionar que nosso trabalho conta com diversos colaboradores, cuja participação se torna vital para podermos realizar as tarefas que demanda o projeto".


Fotos dos livros cartoneros e texto: Daniele Carneiro
Demais fotos: Vento Norte Cartonero

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